Análise do Salmo 22 e sua Relação com a Paixão de Jesus Cristo
O Salmo 22 expressa o clamor humano diante do silêncio divino e sua relevância na experiência de fé, especialmente na Paixão de Jesus.

O Salmo 22 inicia com a pergunta: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?". Esta indagação expressa o clamor de quem, mesmo clamando dia e noite, recebe apenas silêncio como resposta, situação que parece suspender a ordem do mundo e deixa o homem diante de uma pergunta que ele não sabe se tem o direito de fazer.
Tradicionalmente atribuído ao rei Davi, o Salmo 22 é guardado nos Ketuvim, os Escritos da tradição hebraica, como a oração de um justo cercado por zombaria, violência e aparente indiferença divina. O cristianismo reconheceu essa oração nas palavras de Jesus na cruz, proferidas em aramaico, a língua cotidiana, como uma herança de fé que ele carregava desde sua origem judaica.
Jesus, judeu que nasceu na Torá, cresceu nas sinagogas e celebrou as festas de seu povo, afirmou que não veio abolir a Lei nem os Profetas, mas cumpri-los. Os Evangelhos apresentam sua vida como um cumprimento das Escrituras, desde a leitura do rolo de Isaías na sinagoga de Nazaré até o anúncio de sua paixão, morte e ressurreição. Na estrada de Emaús, após a crucificação, Jesus explica aos discípulos como as Escrituras falavam a seu respeito, mostrando que a tristeza deve ser relida à luz de uma história maior.
O Salmo 22 não termina no grito inicial de abandono. Após descrever o cerco dos inimigos e a divisão das vestes, o orante muda de tom, afirmando que Deus não desprezou sua aflição, não escondeu o rosto e ouviu seu clamor. Essa oração une a pergunta do abandono à confiança final, e é possível que Jesus, ao proferir o início do Salmo na cruz, invocasse também seu desfecho.
A tradição judaica não precisa ver no Salmo uma profecia sobre Jesus para reconhecer a profundidade da experiência do justo que sofre e persevera. O cristianismo, ao contemplar a Paixão, reconheceu nessa experiência uma correspondência singular com a vida e morte de Cristo, sem confundir as duas leituras. A dor não prova que Deus deixou de ser fiel, como também mostra o Livro de Jó, onde o inocente sofre e protesta, mantendo a coragem de dirigir-se a Deus.
O Êxodo começa num silêncio, com o gemido dos filhos de Israel sob a servidão, até que Deus ouve o clamor e se lembra da aliança. Moisés, convocado para libertar o povo, questiona sua capacidade, e Deus responde com a promessa de presença: "Eu serei contigo". A resposta divina não torna as insuficiências humanas suficientes, mas garante que não caminharemos sozinhos.
O cristianismo eleva essa promessa no mistério da Encarnação. Segundo a doutrina trinitária, Pai, Filho e Espírito Santo são três pessoas em uma só natureza divina. O Filho eterno, ao assumir a condição humana, não deixou de ser Deus, mas fez-se verdadeiramente homem, conhecendo fome, cansaço, amizade, traição, angústia e morte. Por isso, a carta aos Hebreus afirma que temos um sumo sacerdote que pode compadecer-se das nossas fraquezas.
Assim, o grito do Calvário não rompe a unidade da Trindade, sendo inteiramente verdadeiro. O Pai não deixou de amar o Filho, nem a comunhão divina se desfez, mas a natureza humana de Cristo percorreu a experiência em que a presença de Deus parece ausente. Não há contradição entre essas verdades, pois o sofrimento pertence à humanidade assumida pelo Filho, e a comunhão à divindade que jamais se interrompeu.
O que se oferece ao aflito é um Deus que atravessou a dor por dentro, mais significativo do que qualquer explicação que a dor consentiria ouvir. Mesmo na angústia extrema, Jesus disse "meu Deus", afirmando sua pertença e dirigindo a oração àquele cuja face parecia oculta. A fé se revela também na perseverança de quem, na escuridão, continua a buscar a luz, fazendo do grito do abandono um ato de fidelidade.
Paulo, judeu formado na tradição farisaica, chamou a cruz de escândalo para uns e loucura para outros, pois contrariava as expectativas humanas de poder e triunfo. Ele percebeu que o poder de Deus não precisava manifestar-se segundo critérios humanos, e que o que parecia fraqueza revelou-se amor supremo, com a Ressurreição tornando o fim fundamento de nova esperança.
A dor, a injustiça e a morte não foram abolidas ou romantizadas, mas nenhuma delas tem a última palavra. Entre a sexta-feira da cruz e a manhã da Ressurreição, há o sábado do sepulcro, um intervalo de medo, perplexidade e tristeza, que a fé não apaga, mas incorpora ao mistério. Quem hoje vive esse momento pode saber que a tradição não o julga indigno de fé.
A espera do Salmo não é passividade. Abraão, Moisés, Jó e os profetas perseveraram na fé mesmo diante da dúvida e da dificuldade. A confiança em Deus não dispensa a responsabilidade humana de agir segundo a verdade reconhecida, e nas horas difíceis a liberdade de preservar a dignidade, cultivar a justiça e guardar a integridade da consciência alcança seu maior significado.
Por fim, perder as razões visíveis para a esperança é uma circunstância da existência, e dores profundas podem comprometer a capacidade de ter esperança, sem que isso seja culpa do sofredor. A tradição oferece a possibilidade de manter a porta da esperança aberta mesmo quando tudo parece negá-la, uma expressão profunda da liberdade humana, como faz o salmista ao continuar dizendo "meu Deus" no meio da noite, mesmo sem convicção, por não saber a quem mais recorrer.
Não sabemos por que certas provações nos alcançam, e seria arrogância tentar decifrar todos os desígnios divinos, especialmente quando explicações só aumentariam o sofrimento. A humildade espiritual começa por admitir que nem toda pergunta encontra resposta nesta vida. O texto hebraico do Salmo termina com a palavra "ele fez", indicando que, após o clamor, o escárnio e a espera, as gerações futuras anunciarão que a obra está feita, ecoando o "está consumado" do Evangelho de João.
O Salmo 22 caminha da pergunta do abandono para a proclamação de que Deus ouviu. Entre esses pontos está a experiência da noite humana e, para os que creem, o mistério da redenção, que ensina que não é preciso negar a escuridão para continuar acreditando na luz, pois o silêncio de Deus nunca deve ser confundido com a última palavra de Deus.
O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.
Fonte: D24AM