Claude Lévi-Strauss e a Expedição de 1938 ao Território do Guaporé
Em 1938, Claude Lévi-Strauss realizou expedição ao futuro Território do Guaporé, estudando povos indígenas e registrando a jornada em diário e fotos.

Em 1938, o jovem antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss, aos 29 anos, realizou uma das últimas grandes expedições etnográficas do século XX ao interior do Brasil, no futuro Território do Guaporé, hoje Rondônia. A jornada incluiu 500 quilômetros de caminhão de Cuiabá a Utiariti e mais 340 quilômetros a lombo de animais até o Posto Telegráfico de Vilhena, no portal da Amazônia Ocidental.
Durante 14 dias em setembro de 1938, Lévi-Strauss permaneceu em Vilhena, onde estudou os Nambiquaras, caboclos, seringueiros e garimpeiros. Ele seguiu de trem da Madeira-Mamoré de Guajará-Mirim a Porto Velho e registrou tragédias como a quase dizimação dos Sabanês por uma gripe em 1929. Sua descrição da paisagem de Vilhena ressaltou a "virgindade paisagística" e a monotonia da natureza, comparando postes tortos do telégrafo ao surrealismo de Yves Tanguy.
Antes da expedição, Lévi-Strauss reuniu em Cuiabá uma equipe composta por 15 homens, 15 burros e 30 bois, com apoio do governo brasileiro e do etnólogo francês Paul Rivet, que financiou a viagem. Acompanhavam-no o carioca Luiz de Castro Faria, o etnógrafo Jehan Albert Vellard, além de peões, vaqueiros e um cozinheiro indicado pelo bispo de Cuiabá. A jornada enfrentou dificuldades como atolamentos e travessias em balsas improvisadas, com o trecho final feito a lombo de muares.
Luiz de Castro Faria registrou detalhadamente a expedição em um diário, publicado em 2001 como "Um outro olhar: Diário da Expedição à Serra do Norte", contendo fotos e desenhos do cotidiano da região. Entre as observações, destaca-se a visita de indígenas Mamaindês e Cabixis ao Posto Vilhena para uma apresentação de flauta, descrita como uma experiência mágica e profunda.
Houve divergências entre Lévi-Strauss e outros pesquisadores, como Cândido Rondon, sobre a classificação dos Sabanês e Nambiquaras. Rondon estimava 20 mil Nambiquaras e os chamava de canibais que escravizavam mulheres e crianças, enquanto Lévi-Strauss apontou o extermínio por doenças, escravidão e guerras, além de negar o canibalismo e destacar práticas como a poligamia entre chefes. Durante a expedição, Lévi-Strauss enfrentou resistência do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), recusando a imposição de um fiscal, e teve o visto negado no Estado Novo, exilando-se nos EUA até o fim da guerra. Retornou ao Brasil em 1985 por seis dias.
Fonte: Portal Amazônia