Festival de Parintins destaca lendas e rituais dos bois Caprichoso e Garantido
Festival de Parintins encerra com lendas, homenagens e rituais dos bois Caprichoso e Garantido, destacando tradições, espiritualidade e memória ancestral da Amazônia.

Na última noite do 59º Festival Folclórico de Parintins, o Bumbódromo foi palco de apresentações dos bois Caprichoso e Garantido, que trouxeram lendas, rituais e figuras típicas da Amazônia, reforçando a preservação de memórias, crenças e modos de vida transmitidos de geração em geração.
O Boi Caprichoso apresentou o tema Nhaçã Hekã – Macacos Comedores de Gente, uma lenda da região da Ilha do Bananal. A história narra a coragem do jovem guerreiro Maricá, que enfrenta criaturas gigantescas e ferozes que aterrorizavam seu povo. Com a ajuda encantada de duas guardiãs da floresta, a Cobra e o Sapo, Maricá recebe flechas mágicas e descobre o ponto fraco dos monstros, conseguindo derrotá-los e devolver a paz à comunidade.
Na figura típica regional, o Caprichoso homenageou As Farinheiras da Amazônia, mulheres que preservam o conhecimento sobre o cultivo da mandioca e a produção da farinha, alimento central na identidade dos povos da região. A apresentação destacou a casa de farinha como espaço de convivência, transmissão de saberes e fortalecimento comunitário, ressaltando o papel das farinheiras e o sistema de trabalho coletivo conhecido como puxirum.
O ritual do Caprichoso acompanhou a formação do pajé, que atravessa o portal Inhum-djêk, uma gigantesca teia de aranha suspensa entre o céu e a terra. Essa travessia representa uma prova espiritual para alcançar o plano celestial, onde encontra Okti, o Grande Gavião-Real, reconhecido como o primeiro grande xamã. O pajé, ao concluir a iniciação, recebe o dom de dialogar com as forças da natureza, curar enfermidades e proteger seu povo, evidenciando a relação entre espiritualidade, natureza e conhecimento tradicional nas cosmologias indígenas.
O Boi Garantido apresentou a lenda Templo do Sol, inspirada na tradição do povo Konduri. Segundo a narrativa, Kwaracy, o Sol, caminhava pela Terra em forma humana, espalhando vida, mas seu brilho assustou os homens, que se esconderam. Yacy, a Lua, convenceu o irmão a retornar, e Kwaracy, ao tocar as urnas cerâmicas Konduri, lhes concedeu vida e fez delas o abrigo do fogo da criação. A lenda destaca a tradição ceramista do povo Konduri e a importância da arqueologia amazônica.
Na figura típica regional, o Garantido homenageou o Festeiro de Santo, personagem tradicional das comunidades amazônicas responsável por organizar festas religiosas em agradecimento às graças alcançadas. A apresentação também fez referência ao poeta e fundador do Boi Garantido, Lindolfo Monteverde, conhecido por sua devoção a São João Batista e pelo compromisso com a tradição religiosa.
O Garantido também apresentou o Ritual da Travessia das Cinzas, baseado nos costumes funerários da civilização Konduri, povo que habitou as margens dos rios Amazonas, Trombetas, Tapajós e Nhamundá. Segundo a tradição, a morte representa uma passagem para outro plano de existência. Após o falecimento, o corpo era colocado sobre uma pira para ser purificado pelo fogo, símbolo de transformação e libertação do espírito. O pajé conduzia a cerimônia em uma canoa que lembrava um grande jacaré, animal associado ao poder de conduzir a alma durante a travessia para o mundo espiritual. O ritual também destacou as figuras zoomorfas presentes nas cerâmicas Konduri, evidenciando a relação de equilíbrio entre seres humanos, animais e natureza.
Fonte: Portal Amazônia