Literatura brasileira aborda desastres socioambientais em obras recentes
Literatura brasileira recente aborda desastres socioambientais, destacando obras que exploram impactos ambientais, sociais e culturais em diferentes regiões do país.

Na literatura brasileira, a questão socioambiental tem sido tema central em diversas obras que ampliam as discussões sobre destruições ambientais. Márcia Kambeba, doutora em Linguística e mestre em Geografia, é uma das autoras que destacam a importância da literatura para refletir sobre esses temas. Escritora com 11 livros publicados, poeta, apresentadora e educadora, ela aborda em sua obra a relação entre povos indígenas e o meio ambiente.
O conceito de ficção climática, ou cli-fi, popularizado a partir de 2007 pelo jornalista Dan Bloom, tem sido utilizado para descrever narrativas que vão além da representação de fenômenos naturais e crimes ambientais, explorando seus impactos sociais, como desigualdade, racismo ambiental e deslocamentos forçados. A escritora Natália Borges Polesso, doutora em Teoria Literária e referência nos debates sobre o Antropoceno no Brasil, destaca que as mudanças climáticas são sintomas de processos maiores, como o neoliberalismo e a colonização, e que a literatura brasileira tem incorporado cada vez mais essas questões.
Obras como "A Mancha" (2021), de Guilherme Gontijo Flores e Daniel Kondo, retratam o derramamento de óleo que atingiu mais de mil pontos do país em 2019, afetando ecossistemas costeiros e animais marinhos. Já "Corpos Benzidos em Metal Pesado" (2023), de Pedro Augusto Baía, aborda os impactos do garimpo ilegal e da mineração na Amazônia, explorando conflitos, afetos e identidades em 11 contos. O livro foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2022 na categoria Contos.
Maria José Silveira, escritora e antropóloga, em seu romance "Maria Altamira" (2020), conecta a tragédia do terremoto em Yungay, Peru, em 1970, com os impactos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no Xingu, mostrando diferentes formas de devastação e resistência indígena. A poesia indígena de Márcia Wayna Kambeba, em "O Lugar do Saber Ancestral" (2021), enfatiza a relação entre natureza, memória e identidade, apresentando seres como matinta, boto e curupira como integrantes da natureza e da comunicação territorial.
Outras obras destacadas incluem "O Gosto Amargo dos Metais" (2022), de Prisca Agustoni, que trata das consequências dos rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho em Minas Gerais, e "Contra Fogo" (2024), de Pablo Casella, que narra a rotina de brigadistas voluntários na Chapada Diamantina durante o período de queimadas. "Porto Alba" (2026), de Irka Barrios, mistura suspense e questões ambientais ao abordar uma doença misteriosa e a construção de uma hidrelétrica em uma cidade fronteiriça. Essas obras refletem a diversidade e a profundidade com que a literatura brasileira tem tratado as questões socioambientais contemporâneas.
Fonte: Portal Amazônia