Médico do futuro: saber mais de tecnologia ou de gente?
O Afya Summit 2026 em São Paulo discutiu o impacto da tecnologia na Medicina e a importância das habilidades humanas dos médicos. Especialistas destacaram a necessidade de integrar inovação com humanização no cuidado ao paciente.

Durante décadas, o avanço tecnológico na Medicina foi associado à ideia de que o futuro seria dominado por máquinas: computadores fariam cálculos, equipamentos produziriam imagens mais precisas e algoritmos ajudariam a identificar doenças antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Essa previsão está, de fato, se confirmando. Mas ela vem acompanhada de um paradoxo: quanto mais tecnologia entra no consultório, mais valiosas se tornam as habilidades genuinamente humanas do médico.
Essa foi uma das discussões centrais do Afya Summit 2026, que aconteceu no último sábado (29), em São Paulo e reuniu médicos e pesquisadores para debater o avanço da inteligência artificial na Medicina e seus impactos na relação entre médico e paciente. O evento abriu a programação com uma palestra de Daniel Kraft, ligado ao NextMed Health e à Universidade Stanford, e seguiu com painéis sobre dados, ética e humanização.
Um dos temas centrais foi o uso de ferramentas chamadas ambient AI scribes, que acompanham consultas e geram automaticamente a documentação médica, reduzindo o tempo que o profissional passa digitando. Um estudo do JAMA Network Open com 263 profissionais mostrou queda nos relatos de burnout, de 51,9% para 38,8%, após 30 dias de uso, além de mais atenção dedicada ao paciente. Outro levantamento do mesmo periódico apontou avaliações majoritariamente positivas sobre carga de trabalho e relacionamento com pacientes, mas identificou preocupações quanto à precisão das informações geradas e à necessidade de revisão constante.
Para especialistas presentes no evento, essas ferramentas têm limites claros: conseguem transcrever conversas e organizar dados clínicos, mas a interpretação desses dados dentro do contexto de vida de cada paciente segue sendo tarefa humana. Linamara Rizzo Battistella, da Universidade de São Paulo, publicou em 2025 um editorial na Acta Fisiátrica sobre o tema, defendendo que o debate já não é sobre quando a tecnologia vai chegar, mas sobre como incorporá-la.
O Summit também discutiu mudanças na formação médica, com maior peso para habilidades como formular perguntas a ferramentas de IA, interpretar respostas e identificar erros, além do comportamento de pacientes que já chegam ao consultório após pesquisas próprias sobre seus sintomas. Outro ponto debatido foi o potencial da tecnologia para ampliar o acesso à saúde em regiões com poucos especialistas, como partes da Amazônia, desde que acompanhada de infraestrutura, conectividade e capacitação profissional adequadas.
Para os participantes, quanto mais tarefas técnicas forem assumidas por ferramentas de inteligência artificial, maior tende a ser a valorização de competências como escuta, comunicação e capacidade de individualizar o tratamento, o que, segundo eles, deve ser o principal desafio da próxima geração de médicos.
Daniel Cage, nutricionista e um dos embaixadores do evento, afirmou que já participou de diversos encontros na área de saúde, mas nenhum reuniu tantas inovações alinhadas ao momento atual das tendências do setor como o Afya Summit. Segundo ele, a palestra de abertura, com Daniel Kraft, foi a que mais o impactou até o momento. "Eu não conheço nenhum evento que traga tanta inovação num tempo tão preciso do que está acontecendo, do que está nas tendências das inovações. Isso sem dúvida foi o que mais me chamou a atenção e que me trouxe aqui pra aprender", afirmou o nutricionista.
O especialista se descreveu como entusiasta de tecnologias vestíveis e citou usar anel e pulseira inteligentes e acompanhar métricas de saúde pelo iPhone. Ele disse ainda receber essas inovações de forma otimista, desde que equilibradas com a humanização do cuidado, tema também destacado nas discussões do evento.
Gustavo Meireles, vice-presidente da Afya, disse que a programação do evento o levou a refletir sobre a diferença entre a chegada de uma tecnologia e sua efetiva disponibilidade para toda a população. Para ele, o maior risco do avanço tecnológico na saúde é o aprofundamento de uma divisão digital entre quem tem acesso a essas ferramentas e quem não tem, como populações do interior da Amazônia.
Segundo Meireles, uma solução tecnológica em saúde só pode ser considerada bem-sucedida quando chega a impactar o SUS, e não apenas grupos restritos. "Daniel ele falou sobre o futuro. O futuro chegou! E essa foi a mensagem. E eu vou pegar algumas palavras aqui do Daniel Kraft, porque o que a gente precisa é garantir que o futuro não apenas chegue, mas chegue pra todo mundo. A pior coisa que pode acontecer é a gente criar algo que se chama divisão digital. Divisão digital é o futuro chega, eu tenho acesso, o Leandro tem acesso, você tem acesso, mas e quem tá lá no interior da Amazônia vai ter acesso? Se não tiver acesso o mundo não chegou. Ele tá aumentando o fosso de desigualdade social que a gente tem não apenas no Brasil mas no mundo inteiro então a gente precisa fazer com que novas tecnologias não apenas cheguem, mas cheguem para todos e sejam inclusivas", disse.
Meireles também citou o SUS como exemplo de inovação em saúde pelo alcance universal a mais de 210 milhões de pessoas, e destacou avanços recentes de digitalização do sistema, como o programa Meu SUS Digital, voltado à interoperabilidade de exames e prontuários entre diferentes serviços de saúde, projeto que, segundo ele, conta com participação da Universidade de São Paulo.
"Você acha que se me perguntarem um dia qual é a maior inovação em saúde que você conhece, é o SUS, porque é realmente fenomenal um sistema único de saúde que dê acesso universal para 210 milhões de pessoas em solo brasileiro. Nem falo só de brasileiros né porque se um dos nossos convidados internacionais que está aqui hoje passa mal e precisar aí o SUS ele é atendido", apontou.
Por isso que eu gosto de dizer que na saúde especificamente, eu consigo olhar para uma nova solução, produto com tecnologia como de sucesso, quando derem impacto o SUS. Enquanto ela não impacta o SUS, ela impacta apenas um grupo pequeno, ela é muito bacana, mas ela precisa chegar pra todo mundo", afirmou.
Sobre a formação médica, o vice-presidente da Afya afirmou que a inteligência artificial já está sendo incorporada aos currículos, mas de forma cuidadosa, para não comprometer o desenvolvimento do raciocínio clínico dos estudantes. Ele citou que alunos hoje treinam comunicação de notícias difíceis com atores, manequins de simulação ou avatares de IA, prática que, segundo ele, não existia em sua própria formação.
Meireles também relatou o caso de uma paciente que confrontou um médico com informações obtidas em uma ferramenta de IA, destacando que episódios assim reforçam a importância da decisão compartilhada entre médico e paciente e da humildade profissional diante de pacientes mais informados.
"Eu não posso não incorporar porque eu tenho um atraso tecnológico. Mas ao mesmo tempo eu não posso incorporar isso de forma acelerada e atropelada porque eu tiro o principal ponto que eu preciso ensinar que é aprender a pensar, a raciocinar, a ter juízo crítico e a fazer diagnósticos diferenciados. Então ele tem que estar aqui na palma da mão pra ser um apoio à minha tomada de decisão. Então nosso ponto maior com a Afya é inteligência artificial como um apoio a tomada de decisão, mas sem substituir o ato de pensar", finalizou.
Fonte: D24AM