Mudanças climáticas e crime organizado na Amazônia exigem cooperação regional
Evento do Parlamaz destaca necessidade de cooperação entre países amazônicos diante dos desafios das mudanças climáticas e do crime organizado, segundo avaliação de Paulo Moutinho (IPAM).

Os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde e a expansão do crime organizado na Amazônia exigem políticas públicas integradas e maior cooperação entre os países que compõem o bioma. Essa avaliação foi feita por Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), durante participação virtual no evento Diálogo Estratégico do Parlamaz (Parlamento Amazônico), em 13 de julho de 2026.
Segundo Moutinho, o principal desafio atual na Amazônia é a integração entre crimes ambientais e o crime organizado, o que torna insuficientes as políticas ambientais tradicionais e exige uma estratégia integrada de segurança, planejamento territorial e governança. Ele destacou que o avanço do narcotráfico acompanha a expansão das economias ilegais na região.
Entre 2019 e 2024, as apreensões de cocaína na Região Norte do Brasil cresceram 574,4%, evidenciando a rápida consolidação das redes criminosas. Moutinho também citou um estudo do Instituto Igarapé, baseado na análise de 369 operações da Polícia Federal entre 2016 e 2021, que mostrou que 60% das ações investigavam múltiplas atividades ilícitas simultaneamente e 55% apresentavam associação com organizações criminosas, indicando forte integração entre crimes ambientais e outras economias ilegais.
O Parlamaz é um organismo permanente de cooperação parlamentar que reúne representantes dos oito países da Bacia Amazônica: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Criado em 1989, o colegiado busca fortalecer a cooperação regional e promover iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável, à conservação do bioma e à integração entre os parlamentos nacionais. O evento realizado no Peru marcou o encerramento do ciclo de trabalho da delegação peruana e a transição para novos integrantes do Senado e da Câmara dos Deputados do país.
As discussões também incorporaram evidências apresentadas pelo Painel Científico para a Amazônia (SPA), que lançou em 2025 o relatório "Conectividade da Amazônia para um Planeta Vivo". O documento destaca a importância da conectividade ecológica, hidrológica, climática, social e cultural para a resiliência da floresta e dos serviços ambientais. Entre as conclusões, está o papel da floresta na regulação do ciclo hidrológico da América do Sul, com a umidade produzida pelas árvores alimentando os "rios voadores". O relatório alerta para o aumento de secas e inundações extremas e aponta que a Amazônia se aproxima de um ponto de inflexão ecológica, o que pode comprometer a segurança hídrica, a produção de alimentos, a biodiversidade, a geração de energia e a estabilidade climática em diferentes países da América do Sul.
Ao abordar a relação entre mudanças climáticas e saúde pública, Moutinho ressaltou que os impactos da degradação ambiental já afetam diretamente a qualidade de vida das populações amazônicas. Ele citou que, durante a temporada de incêndios associada ao El Niño, uma parcela significativa da população da Amazônia brasileira respirou ar de qualidade inferior ao registrado no centro de São Paulo nos piores índices. No ano do El Niño, o sistema de saúde brasileiro gastou cerca de US$ 10 milhões apenas para tratar doenças respiratórias.
Fonte: Portal Amazônia