Mulheres da Serra da Lua Revolucionam o Uso do Tucupi na Culinária
Cozinheiras Wapichana transformam o tucupi preto em diversas iguarias, inspiradas por Ana Maria Braga. Iniciativa promove a valorização cultural e gastronômica da tradição indígena.

Inspirada pela renomada chef Ana Maria Braga, uma cozinheira Wapichana decidiu inovar no uso do tucupi preto, aplicando-o em pães, pudins e até sorvetes. O tucupi, derivado da mandioca brava, é um preparo artesanal, típico das comunidades indígenas do Norte, que passa por um processo de cozimento demorado para eliminar toxinas venenosas.
O tucupi preto é uma versão reduzida do amarelo, com uma consistência semelhante à de brigadeiro, e durante anos, apenas quatro mulheres de Roraima – Carol, Lorena, Terezinha e Norma – tinham o domínio de sua preparação. As wapichana que residiam nas proximidades da Guiana Inglesa foram as pioneiras no desenvolvimento desta receita inusitada.
Tradicionalmente, o tucupi amarelo era utilizado em pratos como molhos de pimenta e tacacá, enquanto o tucupi preto era restrito à damurida, um prato típico da região. Contudo, há uma década, Norma e sua sogra Carolina perceberam o potencial do tucupi preto e começaram a experimentá-lo em diversas receitas, como saladas e pratos de carne. "O amarelo é usado para damurida, mas eu quis testar no pato e na galinha caipira", relatou Norma, que se aventurou até a criar um pudim com o ingrediente.
Natural da Terra Indígena Tabalascada, em Roraima, Norma começou a trabalhar com culinária aos 29 anos, após vender cachorro-quente e salgados. Mais tarde, ingressou na equipe de cozinha do Instituto Insikiran, onde teve a oportunidade de cozinhar para 500 alunos. Desde 2007, ela também colabora com a Hutukara Associação Yanomami, ampliando sua influência na gastronomia indígena e participando de diversas assembleias e fóruns.
O tucupi, essencial na culinária indígena, é um insumo que requer cuidado na produção, levando horas para ficar pronto. Carolina da Silva, que ensinou Norma a preparar o tucupi preto, destaca a complexidade do processo, que envolve várias etapas de cozimento e coagem. Atualmente, o tucupi preto é comercializado em potes de 300ml, enquanto as mulheres da Serra da Lua continuam a trabalhar em conjunto para ensinar as novas gerações sobre esta rica tradição gastronômica.
Fonte: Portal Amazônia