Palavras de origem africana como dengo, samba e axé no português brasileiro
Palavras como dengo, samba e axé, de origem africana, fazem parte do vocabulário brasileiro e refletem a influência cultural dos povos banto e iorubá, segundo especialistas.

O cotidiano dos brasileiros é marcado pelo uso de palavras derivadas de línguas africanas, principalmente dos troncos banto e iorubá. Esses termos nomeiam comidas, sentimentos, partes do corpo e elementos culturais presentes no dia a dia.
O dia 25 de maio é o Dia da África, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963. A data destaca a influência africana na cultura brasileira.
O babalaô (sacerdote de candomblé) Ivanir dos Santos, pedagogo, pesquisador e doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca palavras de origem africana e seus significados. Ele é reconhecido por sua atuação na defesa dos direitos humanos e no combate ao racismo e à intolerância religiosa.
O filólogo e linguista Ricardo Stavola Cavaliere, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupa a cadeira número 8, para a qual foi eleito em abril de 2023. Cavaliere afirma que o português do Brasil possui um vasto vocabulário de origem africana, abrangendo áreas como culinária (vatapá, dendê, moqueca, farofa), música (berimbau, cuíca) e fauna (chimpanzé, camundongo). Ele explica que, normalmente, essas palavras mantêm o significado original, mas há casos como "samba", que passou de um tipo de dança para designar um gênero musical.
No âmbito familiar, Cavaliere cita "dengo" para carinho e afeto, e "caçula" para o filho mais novo. Segundo ele, a presença de mulheres escravizadas nas atividades domésticas a partir do Primeiro Império contribuiu para a inclusão dessas palavras. "Cafuné", do quimbundo, significa coçar ou acariciar a cabeça e exemplifica essa relação íntima nas famílias brasileiras do século 19.
De acordo com Cavaliere, as línguas que mais forneceram palavras ao português foram o quimbundo, o umbundo e, em menor medida, o quicongo, trazidas pelo tráfico escravagista a partir da segunda metade do século 16. A presença do quimbundo foi tão significativa que motivou o padre jesuíta Pedro Dias a escrever uma gramática da língua, publicada em 1697, para facilitar o aprendizado dos padres no Brasil.
No século 18, o tráfico de pessoas escravizadas de etnia iorubá ou nagô intensificou-se, aumentando a presença de palavras desse tronco linguístico. Esses termos são frequentes na chamada língua de santo, usada nos cultos do candomblé, como orixá, babalorixá e Ogum.
O pesquisador angolano Geovany Fernandes-Cattuco, conhecido como Gio Cattuco, destaca a origem de palavras angolanas adotadas no vocabulário brasileiro. "Dengo", que significa doçura, carinho e atenção, vem do termo "ndengu" da língua kikongo ou quicongo. Da mesma língua, "muvuca" deriva de "mvuca", que significa aglomeração.
Da língua kimbundu, ou quimbundu, surgiram palavras como "cambada" (de "dikamba", amigo ou companheiro), "capanga" (de "kubanga", lutar), "babá" (do verbo "kubaba", acalentar ou embalar uma criança), "beleléu" (de "mbalale", sepultura ou campa) e "caçamba" (de "kisambu", cesto grande).
Fonte: D24AM