Projeto Manaus Odeia Árvores revela aumento do calor e mudanças ambientais na cidade
Projeto Manaus Odeia Árvores analisa dados de satélite e revela aumento da temperatura da superfície, redução da vegetação e mudanças no clima entre 2001 e 2025 em Manaus.

MANAUS – Dados de satélite de 2.040 áreas da cidade de Manaus, divididas em células de 1 quilômetro, mostram que a temperatura média da superfície varia de 28,2°C nas áreas próximas à floresta até 32,3°C nas localizadas a 6 quilômetros de distância. Essas informações foram reunidas pelo pesquisador Bruno Dantas, com colaboração de Rick Stanley, no projeto Manaus Odeia Árvores, que analisa imagens de satélite para comparar mudanças na vegetação e na temperatura da superfície entre 2001 e 2025.
O estudo usa como referência a Reserva Florestal Adolpho Ducke, localizada na zona norte de Manaus, uma área protegida de 10 mil hectares de floresta nativa criada em 1963 em homenagem ao entomologista e botânico Adolfo Ducke, um dos maiores especialistas da flora amazônica. A análise indica que a temperatura máxima média da superfície da cidade aumentou de 32,6°C em 2001 para 34°C em 2025, um crescimento de 1,4°C. Vale destacar que esses valores se referem à temperatura da superfície terrestre medida por satélites, e não à temperatura do ar registrada por termômetros meteorológicos.
Segundo o estudo, a cada quilômetro de distância da Reserva Adolpho Ducke, a temperatura da superfície aumenta em média 0,38°C nas áreas urbanizadas analisadas. A diferença de temperatura entre áreas urbanizadas próximas à floresta e locais a 6 quilômetros chega a cerca de 2°C. A média histórica mostra 27,9°C na área mais próxima da reserva e 36,7°C no bairro Petrópolis, na zona centro-sul, uma diferença de 8,8°C. Em outra comparação, a diferença chegou a 11,3°C. A reserva é a maior área contínua de floresta considerada no levantamento, com 489 km², e nenhum ponto de Manaus está a mais de 6,7 quilômetros de algum fragmento de mata.
O levantamento também identificou mudanças na cobertura vegetal: entre 2001 e 2005, 57 km² passaram de área verde para urbana, equivalente a quase 8 mil campos de futebol. Das áreas analisadas, 43% perderam vegetação, enquanto 57% mantiveram ou ampliaram a cobertura. Nas áreas que perderam vegetação, o aumento médio da temperatura foi 38% maior. No bairro Cidade Nova, por exemplo, o índice de vegetação caiu cerca de 35% e a temperatura diurna da superfície subiu 2,9°C, três vezes o aumento médio da cidade. No bairro Petrópolis, a vegetação diminuiu 22%, mas a temperatura quase não mudou, com hipóteses de que a área já estivesse aquecida antes de 2001 ou que a vegetação remanescente ainda contribua para o resfriamento. No Aleixo, a vegetação permaneceu estável enquanto a temperatura aumentou em ritmo semelhante ao da cidade.
Além das mudanças na vegetação e temperatura, o projeto comparou dados de chuva entre 2001-2012 e 2013-2025, constatando redução no volume anual de chuva de 5,6%, de 2.319 mm para 2.188 mm, e diminuição de 9,1% no número médio de dias chuvosos por ano. A queda foi mais acentuada em julho, com redução de 19% nos dias chuvosos, e entre junho e outubro, com queda de 14%. A análise relaciona a vegetação ao resfriamento do ambiente por evapotranspiração, processo que transfere água do solo e plantas para a atmosfera, reduzindo a temperatura. Em Petrópolis, uma pesquisa de 2022 indicou que 75% da energia disponível na floresta da reserva era usada nesse processo, contra 37% na área urbana.
O estudo também aponta que superfícies urbanas como asfalto e concreto absorvem e liberam calor, e a redução da circulação do vento entre edifícios contribui para o aumento da temperatura. Em 20 de agosto de 2024, a região metropolitana de Manaus registrou consumo de 1.731,91 megawatts em um dia com temperatura de 36°C e sensação térmica de 45°C. O levantamento compara o custo da energia no Amazonas, R$ 1,07 por quilowatt-hora, com a média nacional de R$ 0,87, evidenciando desafios adicionais para a população local diante do calor intenso.
Fonte: Amazonas Atual