Tartarugas-cabeçudas são registradas com mais frequência na Baía de Guanabara
Projeto Aruanã registra aumento de tartarugas-cabeçudas na Baía de Guanabara desde 2024, com apoio de pescadores e novas pesquisas sobre o comportamento da espécie.

O reaparecimento de tartarugas-cabeçudas na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, tem chamado a atenção de pesquisadores e pescadores artesanais. O fenômeno pode revelar novas informações sobre o comportamento da espécie, considerada ameaçada de extinção.
Desde 2024, o Projeto Aruanã, dedicado à conservação de tartarugas marinhas no litoral fluminense, tem documentado registros mais frequentes desses animais no interior da baía. No dia 18 de abril, pescadores em parceria com pesquisadores realizaram a marcação de dois indivíduos da espécie que permaneceram em currais de pesca, um fato inédito do ponto de vista científico.
A tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) costuma viver em áreas oceânicas e se alimenta principalmente de crustáceos, como camarões e lagostas. A presença mais constante em águas internas da Baía de Guanabara ainda está sendo estudada. A bióloga Larissa Araujo, do Projeto Aruanã, explica que relatos antigos indicavam aparições esporádicas, mas sem registros sistematizados. "Não temos informações pretéritas sobre a ocorrência da espécie no interior da baía, apenas relatos pontuais feitos pelos pescadores, que informavam ser mais rara a sua presença. Desde julho de 2024, esses registros começaram a aumentar e passou a ocorrer também a entrada delas nos currais de pesca", afirmou Larissa.
Segundo Larissa, a principal hipótese é que os animais estejam encontrando condições favoráveis de alimentação no local. Para compreender o fenômeno, o Projeto Aruanã prepara uma nova etapa de monitoramento com transmissores via satélite, com o objetivo de identificar rotas, tempo de permanência e áreas preferenciais dentro da baía. Ela destaca que, embora a região possa oferecer alimento, também apresenta riscos importantes à sobrevivência dos animais, como contato com águas poluídas, colisões com embarcações, ingestão de resíduos sólidos e captura acidental em artes de pesca.
A coordenadora-geral do projeto, bióloga Suzana Guimarães, afirma que ainda não é possível relacionar diretamente o reaparecimento das tartarugas a uma melhora ambiental da baía. "Não é possível afirmar se há relação direta entre uma melhora na qualidade ambiental da Baía de Guanabara e a ocorrência de tartarugas marinhas, uma vez que ainda são limitadas as ações efetivas voltadas à despoluição e ao monitoramento dessas espécies", explicou. Apesar disso, ela considera que os registros revelam a capacidade de recuperação ambiental da região.
O monitoramento atual depende também da colaboração de pescadores e moradores, que informam avistamentos ao projeto por redes sociais e canais de comunicação. Quando os animais ficam presos em currais de pesca, equipes especializadas fazem a marcação, coleta de dados biométricos e avaliação de saúde antes da soltura. "O conhecimento da ocorrência frequente dessa espécie na Baía de Guanabara, para nós pesquisadores, é algo recente e que, graças à parceria com os pescadores artesanais, agora estamos tendo acesso a essa informação preciosa", disse Suzana.
O tema ganhou repercussão em 2025 com o caso de Jorge, tartaruga-cabeçuda macho que viveu cerca de 40 anos em cativeiro na Argentina e foi devolvida ao mar após processo de reabilitação. Monitorado por satélite, o animal entrou na Baía de Guanabara poucos meses depois da soltura, surpreendendo pesquisadores. "Até hoje os pescadores comentam que seguem tentando encontrar o Jorge. Tudo isso desperta um senso de conservação nas pessoas, além de estimular o interesse para as questões ambientais", afirmou Suzana.
Fonte: D24AM