Unidades de saúde em Carauari ampliam atendimento a ribeirinhos
Novas unidades de saúde em Carauari, Amazonas, ampliam atendimento a ribeirinhos, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas e reduzindo o tempo de deslocamento para cuidados médicos.

Moradores da zona rural de Carauari, no interior do Amazonas, enfrentam dificuldades históricas de acesso à saúde devido à distância entre as comunidades ribeirinhas e a área urbana do município. Francisco Solivan Peres de Araújo, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), relata que perdeu a mãe durante o parto de sua irmã, quando tinha 2 anos, por falta de possibilidade de deslocamento até a cidade. "Deu uma hemorragia. Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade", relembra Solivan.
Carauari possui mais de 25,7 mil quilômetros quadrados de área e é banhado pelo Rio Juruá, o que faz com que o deslocamento da zona rural até a sede do município possa levar horas ou dias, dependendo das condições do rio e do tipo de embarcação. Até os anos 90, relatos de mortes por falta de atendimento eram frequentes. A prefeitura implementou um sistema de lanchas de resgate para emergências, mas a distância ainda provoca atrasos no atendimento. Adriana da Silva e Silva, moradora da comunidade de São José do Nachiqui, sofreu sequelas após esperar mais de 24 horas por socorro após uma picada de cobra em 2019.
Outros moradores, como Raimundo Viana da Cunha, colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), também relatam dificuldades enfrentadas antes do fortalecimento das organizações de base. Raimundo perdeu o irmão após uma semana de espera por atendimento, devido à dependência de transporte de regatão. Segundo ele, a situação começou a melhorar a partir de 1997, quando as organizações passaram a buscar direitos para a população do Médio Juruá.
A prefeitura de Carauari, que tem cerca de 28 mil habitantes e orçamento estimado em R$ 142 milhões para 2026, mantém o serviço de resgate por lanchas, com custo mensal entre R$ 40 mil e R$ 45 mil, além de Unidades Básicas de Saúde fluviais que atendem de forma eventual. Segundo o secretário de saúde Manoel Brito, parcerias com o terceiro setor são fundamentais para ampliar o atendimento, devido às limitações orçamentárias do município. O Ministério da Saúde informou que, em 2024, estão sendo aplicados R$ 500 milhões para implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha em 2.690 municípios.
Na última semana, dois pontos de saúde foram instalados nas comunidades de Bauana e Campina, por meio do projeto SUS na Floresta, realizado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o BNDES, Umane, IDIS, prefeitura de Carauari e Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas. As unidades devem atender 56 comunidades ribeirinhas e beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas, com consultórios presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico e equipamentos de telessaúde. Moradores e profissionais de saúde destacam que a proximidade do atendimento pode reduzir em até 80% as chamadas para resgate por lancha, além de contribuir para que as famílias permaneçam em seus territórios tradicionais.
Fonte: Portal Amazônia