Violência nas escolas desafia professores e exige novas estratégias
Casos recentes de violência em escolas do Norte expõem desafios para professores, que relatam aumento de agressões e adoecimento ocupacional.

As aulas no Instituto São José, escola do Governo do Acre em Rio Branco, foram retomadas na segunda-feira (18) após um ataque ocorrido em 5 de maio que resultou na morte de duas inspetoras e deixou uma servidora e uma estudante de 11 anos feridas. O principal suspeito, segundo as investigações, é um adolescente de 13 anos que utilizou a arma do padrasto.
A Secretaria de Educação do Acre (SEE) informou que mobilizou o Observatório de Segurança Escolar e que o Ministério da Educação enviou especialistas ao estado para prestar suporte técnico à escola. A secretaria também informou que a funcionária e a estudante feridas receberam atendimento médico imediato e se recuperam em casa. A Polícia Civil investiga o caso.
O secretário de Educação do Acre, Reginaldo Prates, afirmou que o governo não trata o episódio como um fato desconectado da necessidade permanente de fortalecimento da segurança no ambiente escolar. Ele destacou que os profissionais da educação vêm recebendo acompanhamento técnico e formações específicas voltadas ao cuidado emocional, mediação de crises e estratégias de inclusão e atenção educacional especializada no contexto pós-trauma.
O caso faz parte de uma estatística crescente no país, que registrou 13 mil ocorrências de violência física ou ameaça em escolas em 2023, um aumento de 250% em relação a 2013, segundo dados da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Em Rondônia, a Polícia Militar foi acionada em 15 de maio para conter um desentendimento entre alunos da Escola Estadual Carmela Dutra, em Porto Velho, durante um campeonato esportivo. No Amazonas, um conflito entre estudantes em uma escola estadual de Manaus terminou com uma facada no pescoço de um dos jovens, em maio de 2023. No mesmo período, um professor foi agredido a pauladas em uma escola estadual de Envira após pedir que uma aluna guardasse o celular.
Professores relatam o impacto da violência no cotidiano escolar. Gracy Hellen*, professora de Matemática da rede estadual de Parintins, conta que já presenciou situações violentas envolvendo estudantes e professores e, ao tentar separar uma briga, foi ferida. Ela relata que tenta impor autoridade para cessar conflitos e, quando necessário, encaminha os casos para a gestão escolar. Gracy relata que os professores acabam assumindo múltiplos papéis, como psicólogos e investigadores, mas se sentem de mãos atadas diante da imprevisibilidade das situações.
Patrícia Nunes, professora da rede estadual de Roraima há 26 anos, observa que a violência escolar aumenta a demanda sobre o professor, que precisa identificar situações de risco, relatar ocorrências e buscar apoio de outros setores, como orientação educacional e assistência psicológica. Ela destaca que muitos professores adoecem por falta de apoio.
Um estudo da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) com 25 professores identificou que a violência física e psicológica no ambiente escolar gerou adoecimento ocupacional e, em casos extremos, abandono da carreira. Os professores relataram dificuldades para abordar temas como diversidade étnica e racial e para lidar com a falta de compreensão dos pais, que frequentemente responsabilizam os docentes pelos problemas dos alunos.
Outro estudo, da UFF (Universidade Federal Fluminense) em 2025, apontou que 61% dos professores da educação básica disseram ter sido vítimas diretas de algum tipo de violência em sala de aula. O professor da rede pública de Manaus, Daniel Almeida, afirma que busca manter a escuta ativa e incentivar o diálogo e a resolução pacífica de conflitos como estratégias para lidar com o aumento das agressões.
A doutora em Educação Flávia Vivaldi explica que ataques em escolas costumam ser precedidos por sofrimento, isolamento, experiências de humilhação, conflitos persistentes e exposição a conteúdos violentos. Ela ressalta a importância de construir ambientes de pertencimento e proteção, identificar riscos e criar protocolos de crise e pós-crise, além de envolver professores, gestores, famílias, saúde mental, assistência social e segurança pública na prevenção.
O psicólogo Fabrício Albuquerque destaca que episódios de violência escolar podem impactar o desenvolvimento de crianças e adolescentes, levando a dificuldades em relações sociais e profissionais na vida adulta. Ele afirma que experiências de violência não elaboradas na escola podem resultar em adultos com ansiedade social e dificuldades de integração em grupos.
* Gracy Hellen é nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.
Fonte: Amazonas Atual