Aumento de motocicletas em Manaus impacta mobilidade e segurança no trânsito
Estudo aponta que o aumento das motocicletas em Manaus impacta mobilidade, eleva acidentes e desafia políticas públicas de transporte coletivo.

O Brasil vive uma inversão histórica na forma como as pessoas se deslocam, especialmente em cidades como Manaus, onde o transporte individual, principalmente por motocicletas, passou a predominar. Nas grandes cidades, metrô, trens e ônibus ainda suprem a necessidade de deslocamento urbano em massa, mas em Manaus, desde 2025, as motocicletas lideram o emplacamento de veículos. Esse movimento é impulsionado pelo trabalho por aplicativo e pelo encolhimento do transporte coletivo.
Segundo pesquisa coordenada pelo professor Augusto César Barreto Rocha, doutor em Engenharia de Transportes pela Coppe/UFRJ e docente da Ufam, a produção nacional de motocicletas saltou de 1,2 milhão de unidades em 2021 para mais de 2 milhões por ano atualmente. Entre 2021 e 2025, as vendas desses veículos aumentaram 78%. O avanço ocorre devido ao menor custo das motos em relação aos carros, congestionamentos, uso em aplicativos de transporte e ampliação do crédito. O estudo aponta que a alta nos preços dos automóveis empurrou parte dos consumidores para as motocicletas, tendência observada em Manaus e em outras cidades do país.
O aumento das motocicletas nas ruas também elevou o desrespeito às regras básicas de trânsito, como sentido das vias e limites de velocidade. Augusto Rocha lamenta que a mobilidade urbana tenha saído da pauta das eleições, substituída por debates polarizados. Ele afirma: “O transporte coletivo é declinante; a sua atratividade para as necessidades das pessoas, ao mesmo tempo em que para as empresas também, é declinante do ponto de vista de negócio à rentabilidade da operação em função da baixa atratividade”. O professor defende linhas exclusivas, ônibus não paradores, calçadas e ciclovias para melhorar a mobilidade.
De acordo com o Detran, até julho deste ano, havia 326.461 motocicletas em circulação em Manaus, representando 31% da frota da capital. O aumento da frota se mantém entre 5 e 6 mil veículos mensalmente. No transporte coletivo, são 1.300 ônibus cadastrados em 237 linhas, segundo o Sinetram. O engenheiro civil Manoel Paiva, especialista em mobilidade urbana, afirma que a frota é pequena para atender mais de 2,3 milhões de pessoas. Ele defende que a mobilidade urbana seja o centro dos debates políticos e destaca a necessidade de integração entre diferentes modos de transporte.
O crescimento do transporte individual implica em custos sociais e de saúde. Nos últimos cinco anos, 739 mil motociclistas foram internados pelo SUS em decorrência de acidentes de trânsito, segundo Manoel Paiva. Em Manaus, de janeiro a maio de 2026, foram registradas 110 mortes no trânsito, alta de 6,8% em relação ao mesmo período de 2025, quando ocorreram 103, segundo o IMMU. Destas, 56 foram motociclistas e 31 pedestres. A Avenida Torquato Tapajós liderou o ranking de vias mais letais, com sete mortes. Dados do Portal Saúde AM em Tempo Real mostram 2.312 internações por acidentes de trânsito em julho, das quais 1.648 envolveram motociclistas. Manoel Paiva afirma que motociclistas representam 60% dos óbitos no trânsito da cidade e destaca o desrespeito às leis de trânsito como fator agravante.
O arquiteto e urbanista Emanuel Moraes aponta que a falta de espaços públicos de qualidade afasta os moradores da convivência próxima, mais do que a ausência de transporte coletivo. Ele destaca a carência de parques, calçadas e infraestrutura para pedestres em Manaus, além da priorização do carro nas políticas urbanas. Moraes cita o Prosamin como exemplo positivo de programa habitacional que reinseriu pessoas em áreas com infraestrutura consolidada, ao contrário de conjuntos habitacionais erguidos em zonas distantes, que sofrem com ausência do Estado e presença do crime organizado.
Fonte: Amazonas Atual