Boto cor-de-rosa, sentinela dos rios, e os desafios para sua conservação na Amazônia
O boto-cor-de-rosa é uma espécie ameaçada de extinção e carrega significados culturais profundos na Amazônia, exigindo esforços de conservação.

Desde 2018 o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) foi incluído na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Quem vive na região amazônica provavelmente já ouviu sobre um charmoso homem vestido de branco, que seduz jovens ribeirinhas e depois desaparece nas águas, se transformando em um animal, o boto. Com isso, crianças sem a figura paterna conhecida foram associadas a serem “filhos de boto”, alimentando histórias que permeiam o imaginário popular.
Essa cosmologia ainda é comum. No Pará, isso ocorre principalmente nas regiões do arquipélago do Marajó, baixo Amazonas e Baixo Tocantins, onde a presença desses animais é mais frequente, explica a pesquisadora Angélica Rodrigues, bióloga e uma das diretoras do Instituto de Biologia e Conservação de Mamíferos Aquáticos da Amazônia (BioMA), da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). O grupo atua com educação ambiental, resgate de animais encalhados e pesquisas para conservação das espécies, entre elas os botos.
Em alguns lugares há resistência a falar sobre esses conhecimentos locais, mas também existe respeito, tanto em comer a carne do animal quanto em manter distância, especialmente entre mulheres, que evitam o boto por conta da lenda de que ele pode “mundiá-las”, convocando-as para situações em que perdem a cabeça, são levadas para o rio, engravidam e têm um filho do boto. Os botos também são foco do comércio de subprodutos místicos, com venda de partes dos animais, unguentos medicinais e amuletos, tanto na capital quanto no interior, geralmente escondidos para evitar fiscalização.
Além do boto-cor-de-rosa, outras espécies também estão ameaçadas: o boto Tucuxi (Sotalia fluviatilis) está na categoria “em perigo de extinção” na lista brasileira, enquanto o boto do Araguaia (Inia araguaiaensis), registrado pela primeira vez em 2014, já é considerado vulnerável. Os motivos do declínio incluem perda de habitat, dragagem dos rios, interação acidental em redes de pesca, captura para isca, poluição e alterações climáticas.
Um caso recente ilustra os impactos da poluição: no início do ano, um boto rosa adulto foi encontrado em um canal no centro de Belém, com o trato intestinal cheio de lixo. O animal, um macho adulto, não resistiu. A reprodução da espécie é outro desafio, pois a gestação pode durar até um ano e a mãe leva de dois a três anos para ter outro filhote devido ao cuidado parental intenso. Os botos são considerados sentinelas da natureza, acumulando informações sobre o ambiente e indicando a resposta dos ecossistemas às emergências e impactos antrópicos.
Fonte: Portal Amazônia