Dissertação investiga representações da Amazônia na trilogia de filmes Tainá
Dissertação de 2023 analisa como a trilogia Tainá representa a Amazônia e a infância indígena, destacando estereótipos e a exclusão de outras culturas na região.

O cinema é uma das formas de entretenimento escolhida por muitos pais para passar tempo com suas crianças e criar memórias. Mais que diversão, o cinema é uma das sete artes clássicas e exerce papel fundamental ao amplificar vozes e apresentar narrativas que formam opiniões. A dissertação Discurso, cinema, meio ambiente e a produção da infância amazônida buscou investigar como a Amazônia é apresentada nas grandes telas, discutindo e problematizando as representações cinematográficas com temática regional.
A pesquisadora Deisiane Aviz do Nascimento analisou os filmes da trilogia Tainá, que apresentam o território e as infâncias amazônidas ao público infantojuvenil. A trilogia conta a história de uma criança indígena que defende a floresta contra invasores, como caçadores, garimpeiros e madeireiros ilegais. Esses filmes divulgam informações e representações da Amazônia e dos modos de vida da infância indígena, sendo usados por profissionais da educação como recurso didático-pedagógico em diversas áreas do conhecimento.
Deisiane destaca a importância da obra e das possibilidades de estudos que emergem dela para desenvolver análises que problematizam os significados em circulação. A pesquisa utilizou a metodologia da Etnografia de Tela, dividida em quatro etapas: visualização espontânea dos filmes, análise minuciosa com desmontagem para mapeamento em conjuntos discursivos, seleção de cenas considerando linguagem cinematográfica, trilha sonora, personagens e diálogos, e articulação das cenas para construção de conjuntos temáticos para análise, fundamentada nos estudos de Michel Foucault.
O estudo apontou um olhar estereotipado e limitado sobre a Amazônia e seus habitantes, que não são representados de forma diversa e plural, mas com identidade fixa e homogênea. A trilogia apresenta a Amazônia como um espaço extraordinário e verde, habitado exclusivamente por indígenas retratados como "bons selvagens" e defensores da floresta. A infância indígena é mostrada como homogênea, sem acesso a conhecimentos elaborados ou tecnologias, em contraste com a infância da "criança branca" associada à modernidade. Além disso, outros povos tradicionais da região, como ribeirinhos, quilombolas, pescadores artesanais, entre outros, são apagados, o que torna problemático usar Tainá como referência para todas as crianças amazônidas.
A pesquisadora ressalta que a infância na Amazônia é diversa, com comportamentos culturais diferenciados entre as populações. Ela também critica a visão colonial presente no currículo escolar, que apresenta a Amazônia como um contexto homogêneo, ignorando sua diversidade cultural. Para Deisiane, a educação é fundamental para quebrar discursos estereotipados, e é urgente ampliar o conhecimento sobre a Amazônia na sociedade nacional, investindo em pesquisas, produções culturais e divulgação do território. A dissertação foi defendida em 2023 no Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPLSA), Campus UFPA/Bragança, sob orientação da professora Sandra Nazaré Dias Bastos.
Fonte: Portal Amazônia