Educação na Amazônia apresenta desafios em aprendizagem e estrutura, mostram dados
A educação pública na Amazônia enfrenta sérios desafios, com indicadores abaixo da média nacional. Especialistas enfatizam a necessidade de políticas adaptadas e investimentos urgentes.

MANAUS – Indicadores que mensuram a educação no Brasil revelam o longo caminho que ainda será necessário percorrer para alcançar o aprendizado e a estrutura adequados nas escolas públicas da Amazônia. Mesmo com avanços nos últimos anos, a região apresenta resultados de aprendizagem abaixo da média nacional.
Conforme os dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2025, no ensino médio, o Amazonas obteve indicador de 3,8, o mesmo que Roraima para aquele ano. Esses estados tiveram o pior desempenho na Região Norte, sendo 4,5 a média no Brasil. O Anuário Brasileiro de Educação mostra que, também no ensino médio, só 4,7% dos estudantes amazonenses têm aprendizagem adequada em matemática. A defasagem nessa disciplina alcança todos os nove estados amazônicos, pois em nenhum deles a quantidade de alunos com aprendizagem adequada chegou a 10%, diferentemente da realidade em estados com mais estrutura e investimentos.
A educação foi tratada de forma genérica por candidatos a governador nas Eleições 2026, sem metas concretas. Enquanto uns reconheciam algumas necessidades, outros deixaram de abordar ou abordaram pouco o tema. As propostas se resumiram a valorizar os professores, mas sem especificar como será essa valorização. É rara a inclusão da educação indígena no debate, e o uso de inteligência artificial nas escolas foi citado apenas em teoria. Saúde mental e combate à violência ficam de fora da discussão. Em contrapartida, a promessa mais comum foi a de construção de centenas de escolas cívico-militares.
O coordenador de políticas educacionais da Organização Todos Pela Educação, Pedro Rodrigues, explica que, nos estados amazônicos, o acesso e a permanência na trajetória educacional melhoraram nos últimos anos, mas o desafio tem sido garantir um espaço de trocas efetivas de conhecimento e ensino de qualidade. “A gente tem dados que chocam bastante. No estado do Amazonas, por exemplo, só 2% dos alunos estão concluindo o ensino médio com aprendizagem adequada em português e matemática. Os alunos não estão aprendendo da forma como deveriam. A gente sabe que a Região Norte do país enfrenta desafios, principalmente de custos”, disse Pedro.
As características estruturais nas zonas urbana e rural interferem nas condições oferecidas aos estudantes. De acordo com o Anuário, em 2025, somente 9,3% das escolas públicas do Norte estavam conectadas à rede pública de esgoto e 18,3% tinham tratamento de lixo ou resíduos. Especialistas reforçam a necessidade de políticas adaptadas às adversidades amazônicas, onde fatores como comunicação, transporte e condições humanitárias próprias da cultura local são determinantes na trajetória educacional dos jovens.
O professor Gersem Baniwa, do departamento de Antropologia da UnB (Universidade de Brasília), afirma que a educação na região amazônica exige mais investimentos e olhar prioritário por parte do poder público. “Eu sempre escuto dos gestores que a educação não é prioridade porque a educação não maltrata e não mata, como é o caso da saúde. Há uma compreensão equivocada de que a educação não é prioridade diante de outras questões”, disse. “Pouca gente tem consciência e clareza de que a educação não é despesa, é investimento, e que a educação é uma condição para o desenvolvimento digno, igualitário e sustentável de qualquer país, estado ou município. Mas isso não tem força na consciência dos gestores”, acrescentou Gersem.
Essa falta de prioridade também aparece em um dos problemas históricos da educação: o analfabetismo. No Acre, por exemplo, 9,4% das pessoas com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever em 2024, segundo a PNAD Contínua do IBGE. O índice era superior à média nacional, de 5,3%, e mostra que o desafio não está apenas em garantir que crianças sejam alfabetizadas, mas também em ampliar o acesso à educação para quem ficou para trás.
“Essa é uma preocupação que, de fato, precisa ser observada por qualquer governante. Afinal, são pessoas que ficam excluídas das políticas ofertadas pelo governo. O enfrentamento ao analfabetismo, especialmente na área rural, é fundamental, porque só assim a nossa população vai sair dessa zona que nos deixa em uma situação constrangedora e acaba não criando uma intervenção que possibilite um capital humano, seja com mão de obra qualificada, seja como pessoas efetivamente emancipadas”, disse o professor Pelegrino Verçosa, que estuda políticas educacionais na Ufac (Universidade Federal do Acre), ao falar sobre a importância de investimentos na EJA (Educação de Jovens e Adultos).
No estado, também é relatada a dificuldade no ensino médio e com a alfabetização adequada. Em 2025, 32% das crianças acreanas do segundo ano do ensino fundamental ainda não estavam alfabetizadas. “No ensino médio, tem uma evasão muito grande e taxa de reprovação. São alunos que deveriam estar no ensino médio e não estão e ficam à mercê das desigualdades sociais. Os fenômenos da evasão são muitos, como a necessidade de trabalho, gravidez e falta de escola nos territórios mais distantes”, disse Pelegrino.
A formação inicial e continuada dos professores aparece como um dos caminhos para melhorar os indicadores educacionais. Mas essa também não é uma prioridade política. Analistas afirmam que pensar nos professores é estabelecer um planejamento de longo prazo. “O desenvolvimento dos profissionais também não deve estar dissociado das melhorias de sua condição de trabalho. Deve haver investimento, planejamento, organização e continuidade. A formação tem que vir acompanhada de valorização e boas condições de trabalho”, disse a professora Yoli Serrão, da Faculdade de Educação da Ufam. “A gente tem que ter em mente que a educação precisa ser uma carreira atraente para os jovens. Então, não tem como separar a formação das condições mais dignas de trabalho. É necessário que o professor veja sentido e valorização no que faz”, acrescenta Yoli Serrão.
As falhas na educação causam déficits na formação básica e criam barreiras para a entrada no ensino superior. Também geram o desinteresse pela escola e pelo mercado de trabalho profissional formal. Por isso, os professores defendem que os investimentos sejam destinados, principalmente, à ampliação da educação integral e do ensino técnico, métodos que têm alcançado resultados satisfatórios em outras regiões do país.
Com medidas como essas, seria necessário reforçar as estruturas física e humana da comunidade escolar. “Temos alguns exemplos: Pernambuco adotou o modelo integral e teve bons resultados. A gente tem o Espírito Santo como o grande exemplo no ensino médio e conseguiu obter ótimos resultados com a educação integral. Em São Paulo, a gente tem o exemplo das creches em tempo integral. A educação integral como proposta ainda carece de evidências”, disse Pedro Rodrigues, do Todos Pela Educação.
Na Amazônia Legal, a oferta de educação em tempo integral apresenta diferenças importantes entre os estados. Em 2025, o percentual de matrículas nesse modelo nos iniciais do ensino fundamental variava de 4,3% em Rondônia a 44,3% no Tocantins. Maranhão também aparece com uma parcela elevada, de 39,1%, enquanto Amazonas tinha 13,5%, Pará 15,6%, Acre 14,8% e Amapá 10%. Em Mato Grosso e Roraima, os índices eram ainda menores: 7,8% e 6,6%, respectivamente.
Em estados como Mato Grosso e Acre, candidatos a governador defenderam as escolas cívico-militares. É por este método que os políticos tentam promover o que chamam de “educação cidadã”, mas para o analista Pedro Rodrigues, ainda não há evidências que confirmem a eficácia desse modelo de ensino na qualidade da aprendizagem. “As escolas cívico-militares fazem parte de uma política nova que alguns estados vêm adotando e que não têm evidências robustas de qualidade de aprendizagem e que tem um custo superior ao das demais escolas. É custo com policiais que fazem a supervisão [da escola]. A gente entende que o real investimento deve ser feito nos professores mesmo. Todas as evidências nos mostram que os principais fatores de aprendizagem são os professores”, disse Pedro Rodrigues.
A construção de mais escolas é promessa comum na política. Os especialistas consultados reconhecem a importância de novas estruturas, especialmente onde ainda carece de espaços adequados para a aprendizagem, mas afirmam que a melhoria na educação não depende apenas da estrutura. Deve partir, principalmente, de políticas que garantam o envolvimento da comunidade e resultados efetivos na vida das pessoas.
“Não se resolve a educação com a construção de prédios, mas claro que a estrutura é importante. A prioridade deve ser a criação de um projeto que seja democrático e participativo. É preciso investimento, é preciso um projeto comprometido com a educação integral, uma educação que garanta que nos tornemos plenamente humanos e capazes de desenvolver nossas potencialidades, gerar riquezas, desenvolver o senso crítico, inovar, articular saberes, construir conhecimentos, estabelecer relações, desenvolver a ética para com o mundo, a natureza, os diferentes povos”, disse Yoli Serrão.
Fonte: Amazonas Atual