Especialistas explicam segurança das mangas cultivadas em cemitérios no Acre
Frutos colhidos em cemitérios geram debates sobre segurança alimentar. Especialistas discutem contaminação e cuidados necessários para o consumo.

No Acre, os frutos colhidos em cemitérios, como o São João Batista em Rio Branco, são cercados por uma mistura de curiosidade e receio. Enquanto algumas pessoas afirmam que as mangas cultivadas nesses locais são excelentes e até mais saborosas, outras evitam consumi-las por receio de contaminação.
Três especialistas explicam o que acontece no solo desses locais e se existe risco em comer essas frutas. É unânime entre eles que não há comprovação científica de que as mangas sejam contaminadas apenas por crescerem em áreas de sepultamento, pois as plantas não absorvem restos humanos diretamente nem transportam partes dos corpos para os frutos.
A bióloga e mestre em Ecologia Larissa Araújo esclarece que as raízes das mangueiras absorvem água e nutrientes disponíveis no solo, e não doenças das pessoas enterradas. Ela recomenda lavar bem as frutas antes do consumo e evitar aquelas que apresentem rachaduras ou que tenham caído no chão, pois a casca pode conter microrganismos e pesticidas usados no controle de pragas no cemitério.
A decomposição dos corpos provoca alterações no ambiente onde as árvores estão plantadas. A engenheira agrônoma Nárcya Trindade explica que, durante esse processo, nutrientes como carbono, nitrogênio e fósforo retornam ao solo, podendo influenciar o crescimento das árvores e a produção dos frutos. No entanto, isso não significa que as mangas sejam necessariamente maiores ou mais doces.
Nárcya também ressalta que estudos identificaram mudanças na composição química dos solos de cemitérios, inclusive na concentração de metais e outros elementos. Isso não indica que todos esses terrenos sejam mais férteis ou que os frutos estejam contaminados. Para garantir a segurança, seria necessário avaliar as condições do solo, da água e realizar análises nos frutos para verificar a presença de contaminantes em níveis que ofereçam risco.
O biólogo Marcos Silveira, professor e coordenador do Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Ocidental (PPBio) da Universidade Federal do Acre (Ufac), explica que as raízes podem absorver substâncias liberadas durante a decomposição, como o necrochorume. Contudo, isso não significa que essas substâncias cheguem à polpa da manga em quantidades capazes de causar danos à saúde, pois as plantas possuem mecanismos fisiológicos que regulam a absorção e o metabolismo dessas substâncias.
Segundo Marcos, mangueiras antigas em cemitérios com boa drenagem do solo não apresentam risco científico para considerar as mangas perigosas apenas pela localização. Já as mangueiras próximas a sepulturas recentes, em solo encharcado ou sujeito a inundações, exigem maior cautela, especialmente com frutos caídos no chão. Em cemitérios com histórico de contaminação, recomenda-se analisar o solo e a polpa dos frutos antes do consumo regular.
Os especialistas concordam que não é possível afirmar que todas as mangas cultivadas em cemitérios fazem mal, nem que sejam sempre seguras. Por isso, os cuidados com a higienização são indispensáveis. A recomendação é lavar e higienizar os frutos com produtos próprios para alimentos, seguindo as orientações do fabricante, e descartar aqueles que estiverem rachados ou que tenham caído diretamente no solo.
Nárcya finaliza ressaltando que existem cuidados normais de segurança alimentar: lavar e higienizar adequadamente os frutos, evitar consumir os que tiveram contato com o chão e considerar a possibilidade de contaminação microbiológica, principalmente pela presença e circulação de animais no local.
Essas informações foram compiladas por Renato Menezes e Walace Gomes, da Rede Amazônica Acre.
Fonte: Portal Amazônia