Gilberto Mestrinho e o manejo do jacaré: uma abordagem inteligente
Gilberto Mestrinho desafiou a visão tradicional do ambientalismo na Amazônia ao defender o manejo do jacaré, buscando alternativas para ribeirinhos e proteção da fauna.

MANAUS – Ao longo de sua trajetória política, Gilberto Mestrinho manteve uma relação tensa com o movimento ambientalista, que frequentemente impunha proibições gerais e ignorava as realidades locais. A discussão sobre o manejo do jacaré se destacou como um dos episódios mais emblemáticos dessa divergência. Para seus críticos, a proposta parecia apenas uma licença para matar animais silvestres, mas Mestrinho tinha preocupações mais profundas.
Ele argumentava que a proibição de caça, sem a devida pesquisa e presença do Estado, deixava a atividade nas mãos de contrabandistas. Isso não só continuava a prática clandestina, mas também expunha as populações de jacarés e os moradores ribeirinhos a riscos, enquanto eles recebiam uma fração mínima dos lucros gerados por essa atividade. Décadas depois, o debate sobre o manejo pode ser revitalizado com novas ferramentas que não estavam disponíveis na época de Mestrinho.
Hoje, o Amazonas conta com uma vasta quantidade de pesquisas sobre a dinâmica populacional, reprodução e distribuição das espécies de jacarés, além do monitoramento dos lagos e da participação da comunidade. Isso permitiu que a discussão sobre o manejo da fauna evoluísse de meras impressões para um campo mais rigoroso e científico. Mestrinho tinha um conhecimento profundo das realidades das pequenas cidades e das comunidades ribeirinhas, onde as normas criadas em Brasília frequentemente não eram acompanhadas de fiscalização adequada ou apoio ao desenvolvimento econômico.
A Lei de Proteção à Fauna, de 1967, declarou a propriedade dos animais silvestres ao Estado, proibindo sua caça e captura. No entanto, essa legislação permitiu, em casos específicos, a regulamentação do manejo, reconhecendo a necessidade de considerar as peculiaridades regionais. O desafio na Amazônia reside na grande distância entre a proibição formal e a capacidade de controlar um território vasto e complexo, repleto de rios e comunidades dispersas.
O valor econômico do jacaré permanece significativo, com seu couro abastecendo mercados tanto nacionais quanto internacionais, enquanto sua carne circula sem inspeção. A falta de uma cadeia legal e rastreável resultou em preços controlados por atravessadores, enquanto o Estado se concentrava em reprimir os moradores locais. Mestrinho destacou que a conservação baseada apenas na proibição poderia gerar uma economia oculta, sem controle adequado e sem garantir uma remuneração justa para as comunidades. Os avanços nas pesquisas e a participação das comunidades são essenciais para garantir que o manejo do jacaré seja sustentável e benéfico para todos os envolvidos.
Fonte: Amazonas Atual