Inventário do Iphan aponta ameaças de madeireiros e igrejas pentecostais a línguas indígenas
Inventário do Iphan aponta madeireiros, igrejas pentecostais e organizações missionárias como principais ameaças a línguas indígenas, detalhando ações e situação de 23 línguas.

O Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), analisou dados de 23 línguas presentes em sua plataforma, identificando que duas delas estão desaparecendo: Kawahiba do povo Karipuna e Oro Win, ambas de Rondônia. O levantamento destaca que as principais ameaças às línguas indígenas são madeireiros, igrejas evangélicas pentecostais, organizações cristãs não vinculadas a igrejas, além da interferência na educação escolar por meio de cartilhas de alfabetização.
Segundo o INDL, madeireiros atuam principalmente na região de Bandeirantes e Buriti, em Rondônia, promovendo corrupção de indígenas com uso de drogas, divisão das comunidades e extração ilegal de madeira, afetando diretamente a vitalidade da língua Kawahiba do povo Karipuna, que hoje conta com apenas 10 falantes e transmissão interrompida. A pesquisa também aponta que a união conjugal com não-indígenas contribui para a obsolescência da língua.
O relatório detalha que igrejas evangélicas pentecostais, em especial a Igreja Universal do Reino de Deus e o grupo Jovens com Uma Missão, atuam em comunidades indígenas como Matipu, Kalapalo, Nahukwa e Kuikuro, promovendo catequização, desencorajamento de festas tradicionais e incentivando atividades sociais cristãs. Organizações missionárias como a Summer Institute of Linguistics (SIL) e a Missão Novas Tribos do Brasil também são citadas como ameaças, especialmente pela tradução da bíblia e produção de materiais didáticos em detrimento das línguas originárias.
Das 23 línguas analisadas, sete estão em grau severo de ameaça de extinção (Sakurabiat, Kawahiba do povo Amondawa, Salamãi, Latundê, Kwazá, Aikanã de Rondônia e Asuriní do Trocará do Pará), duas estão ameaçadas (Wari’ de Rondônia e Yorùbá do Rio de Janeiro), sete são consideradas vulneráveis (Talian, Kalapalo, Nahukwa, Kuikuro, Karo, Karitiana e Matipu) e quatro possuem grau forte de vitalidade (Paiter, Guarani Mbya, Hunsrückisch e Libras). A avaliação da língua Kawahiba do povo Uru-Eu-Wau-Wau ainda não foi disponibilizada.
A plataforma do INDL, lançada recentemente, visa promover o engajamento comunitário e incentivar pesquisas sociolinguísticas sobre as dinâmicas de uso e preservação das línguas no Brasil. O INDL é o instrumento oficial de identificação, documentação e valorização das línguas faladas por diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. O reconhecimento das línguas como Referência Cultural Brasileira depende da avaliação de um colegiado deliberativo, em fase de constituição, que deverá se tornar o Conselho Nacional de Políticas para a Diversidade Linguística.
Fonte: Portal Amazônia