MPF aciona Justiça contra ANM por falhas na fiscalização do garimpo de ouro
MPF move ação civil pública contra ANM para corrigir falhas na fiscalização do garimpo de ouro, destacando impactos ambientais e à saúde, e pede medidas urgentes na regulação do setor.

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou uma ação civil pública, com pedido de liminar, contra a Agência Nacional de Mineração (ANM), visando corrigir falhas estruturais na regulação e fiscalização do regime de Permissão de Lavra Garimpeira (PLG). O MPF sustenta que o instrumento, criado para autorizar a extração de ouro em pequena escala, tem sido utilizado para viabilizar a lavagem de ouro extraído ilegalmente de terras indígenas e unidades de conservação na Amazônia.
De acordo com o procurador da República André Porreca, responsável pelo caso, "sem regras claras e sem fiscalização da agência, o crime ganha aparência de legalidade, e quem paga a conta é a floresta, são os rios contaminados por mercúrio e são as comunidades que adoecem". A ação aponta três falhas principais: ausência de regras claras para concessão das permissões, existência de garimpos fantasmas e o fatiamento de permissões para burlar exigências ambientais.
O documento destaca que, mesmo após mais de 35 anos da lei que criou o regime de PLG, a ANM nunca estabeleceu critérios científicos e técnicos para definir quando uma área pode receber permissão. Também não exige pesquisa mineral mínima sobre o potencial de ouro antes de liberar a lavra, o que faz com que o mercado opere sem transparência. Além disso, há áreas com permissão ativa que declaram grandes volumes de extração, mas servem apenas para dar aparência legal a ouro extraído de outras regiões. Um dos exemplos citados é de uma permissão de 1,08 hectare que declarou a extração de 776 quilos de ouro, avaliados em R$ 570 milhões, sem que quase nenhuma árvore tenha sido derrubada no local.
A ação também descreve o fatiamento de permissões, prática em que um mesmo grupo econômico obtém várias permissões pequenas em áreas vizinhas e as opera como se fossem uma única mina de porte industrial, diluindo a percepção do real dano ambiental. Com base em relatório do Greenpeace Brasil e auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), o MPF identificou irregularidades em 98 Permissões de Lavra Garimpeira nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia, sob controle de apenas vinte titulares, responsáveis pela declaração de 25,3 toneladas de ouro, avaliadas em R$ 18,4 bilhões. Essas permissões concentram 97% de todo o ouro declarado em 187 processos minerários analisados.
Além dos prejuízos econômicos e tributários, a ação destaca os impactos socioambientais, como o desmatamento de mais de 99 mil hectares de floresta em áreas protegidas da Amazônia até setembro de 2025 e a contaminação de mais da metade dos rios da sub-bacia do Tapajós por mercúrio. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou que 98,5% das 133 gestantes indígenas Munduruku avaliadas apresentavam níveis de mercúrio acima do limite considerado seguro.
Entre as medidas urgentes pleiteadas, o MPF solicita que a ANM crie, em até 30 dias, um grupo de trabalho técnico para reestruturar o regime de PLG; instaure, em até 60 dias, um programa nacional para reavaliar e suspender permissões de lavra com indícios de irregularidades, encaminhando os casos à Polícia Federal, Receita Federal, Coaf e Banco Central; e apresente, em até 120 dias, um estudo técnico para basear a nova regulamentação do regime. A ação exige ainda que novos pedidos ou renovações passem por avaliação sobre a necessidade de pesquisa mineral, que não haja concessões sem licença ambiental prévia e que seja proibida a concessão de títulos em áreas contíguas para o mesmo grupo econômico sem análise integrada de impactos. A ação foi proposta pelo 2º Ofício da Amazônia Ocidental, especializado no enfrentamento à mineração ilegal, e apresentada à Vara Federal Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do Amazonas, sob o número 1036996-07.2026.4.01.3200.
Fonte: Portal Amazônia