Oficina fortalece registros indígenas sobre o território no rio Tiquié
Oficina realizada no rio Tiquié fortaleceu registros indígenas sobre o território, com foco em produção de conteúdo com celular, participação de AIMAs, professores e lideranças.

Uma oficina de comunicação foi realizada pela Rede Wayuri e pelo Instituto Socioambiental (ISA) durante o encontro dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do rio Tiquié. O evento ocorreu na comunidade Serra de Mucura, no município de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, entre os dias 6 e 16 de agosto, como parte do encontro semestral de pesquisadores da região. Cerca de 20 pessoas, entre AIMAs, professores, lideranças, conhecedores e estudantes, participaram da atividade utilizando celulares.
A oficina foi conduzida pela Assessoria de Comunicação do ISA e pela coordenação da Rede Wayuri. O objetivo foi aprimorar os registros que os agentes já realizam durante suas atividades de monitoramento e no cotidiano, fortalecendo a comunicação a partir do território. A proposta partiu do uso cotidiano do celular para fotografar, filmar e se comunicar, buscando desenvolver um olhar mais atento sobre como registrar histórias, paisagens, práticas e conhecimentos.
No primeiro dia, os participantes aprenderam noções básicas de enquadramento, estabilidade da imagem, escolha da orientação do celular, uso da luz natural e cuidados com o áudio. Em seguida, realizaram uma atividade prática de contar uma história utilizando apenas a fotografia, experimentando diferentes formas de observar e registrar o território.
No segundo dia, o foco foi a produção de áudios com qualidade utilizando o celular. Os participantes aprenderam técnicas para gravar a própria voz e realizaram um exercício de edição, organizando imagens e sons em sequência nos aplicativos de edição para celular. Também foi trabalhada a importância do planejamento antes de gravar ou fotografar, especialmente quando os registros envolvem conhecimentos tradicionais, como locais sagrados e medicinas tradicionais.
No último dia, divididos em grupos, os participantes colocaram em prática todas as etapas aprendidas: escolheram o que contar, organizaram o roteiro, fizeram os registros, gravaram as locuções, editaram e finalizaram os vídeos. Entre os temas escolhidos estavam a produção e uso de instrumentos da maloca, narrativas de criação e aves semeadoras. Conhecedores e pesquisadores indígenas foram entrevistados, compartilhando conhecimentos e histórias relacionados aos temas escolhidos.
Durante o encerramento, todos se reuniram para assistir e comentar as produções, promovendo uma troca entre diferentes gerações. Os conhecedores presentes compartilharam outras histórias sobre a origem e a importância de instrumentos rituais, como o tambor e o uhpitu, ampliando as narrativas apresentadas nos vídeos.
Claudia Ferraz, coordenadora da Rede Wayuri e uma das facilitadoras da oficina, destacou que a atividade reforçou a importância de uma comunicação produzida pelos próprios povos indígenas e voltada para a circulação de informações entre os próprios parentes. Ela ressaltou que a maior parte das narrações e relatos foi feita nas línguas maternas da comunidade.
Roberval Pedrosa, liderança e AIMA há mais de 20 anos, afirmou que aprender a utilizar o celular para produzir fotos, vídeos e áudios representa uma ferramenta complementar aos registros já feitos em seus diários de campo. Ele destacou que essa prática fortalece as pesquisas e permite divulgar o trabalho dos pesquisadores indígenas, além de possibilitar a troca de conhecimentos com colegas de outras regiões.
Ismael dos Santos, pesquisador desde 2009, ressaltou que a oficina abriu novas possibilidades, especialmente nos aprendizados sobre produção de áudio e aplicativos de edição. Ele afirmou que nunca havia participado de uma oficina desse tipo e que os conhecimentos adquiridos vão ajudar a divulgar vídeos, tirar fotos e compartilhar com os colegas do grupo.
De acordo com Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA e analista de pesquisa intercultural do Programa Rio Negro, a realização da oficina faz parte do desejo de fortalecer a colaboração entre a rede de pesquisadores e a rede de comunicadores, compartilhando resultados dos registros dos AIMAs, especialmente sobre o clima e as narrativas tradicionais. As oficinas dos AIMAs são realizadas duas vezes ao ano nas diferentes regiões do Alto Rio Negro, promovendo a troca de conhecimentos e aprofundando temas específicos relacionados ao monitoramento e à pesquisa no território. Nesta edição no Tiquié, além da comunicação, os participantes também trabalharam conhecimentos sobre o manejo de capoeira, dando continuidade à formação iniciada em novembro de 2025, na comunidade Boca da Estrada.
Fonte: Portal Amazônia