Países amazônicos estruturam protocolos para proteger golfinhos de rio diante de crises climáticas
Seis países amazônicos colaboram para criar protocolos de emergência que protejam golfinhos de rio e ecossistemas aquáticos diante dos impactos das mudanças climáticas.

Especialistas, governos e organizações de seis países amazônicos estão colaborando para desenvolver protocolos de emergência que fortaleçam a resposta regional aos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas aquáticos. A iniciativa busca transformar recomendações científicas em instrumentos de políticas públicas para proteger os golfinhos de rio e outras espécies vulneráveis.
Em maio de 2023, em Manaus, foi realizada a Oficina Regional SARDI & ASL – Gestão e Adaptação de Protocolos e Instrumentos de Política Pública durante Eventos de Mortalidade Incomum de Golfinhos de Rio. O evento foi um marco para a construção de um toolkit regional que orienta monitoramento, alerta precoce, coordenação institucional e resposta emergencial.
A iniciativa é conduzida tecnicamente pelo WWF-Brasil, no âmbito da South American River Dolphin Initiative (SARDI), em parceria com o Amazon Sustainable Landscapes (ASL), programa do Global Environmental Fund (GEF) liderado pelo Banco Mundial, com apoio do ICMBio e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Participaram especialistas, governantes e pesquisadores do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
Daniel Sumalavia, consultor do programa ASL, destacou a importância da articulação regional: “Os impactos das mudanças climáticas sobre a bacia amazônica afetam toda a região. O encontro em Manaus demonstrou o valor de reunir representantes de diferentes países para compartilhar lições aprendidas e integrar perspectivas na gestão dos ecossistemas amazônicos”.
O encontro ocorreu após eventos extremos em 2023, quando a Amazônia enfrentou seca histórica e ondas de calor intensificadas pelo El Niño. Nos lagos Tefé e Coari, a temperatura da água chegou a 39,1°C, causando a morte de pelo menos 330 botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxis (Sotalia fluviatilis). Ingrid Maria Furlan Oberg, analista ambiental do ICMBio, explicou que a combinação de aquecimento excessivo da água, seca extrema e baixa concentração de oxigênio provocou estresse térmico severo nos golfinhos, que são sensíveis a variações ambientais rápidas.
Hilda Chávez, pesquisadora do Instituto Mamirauá, afirmou que o evento de 2023 foi um divisor de águas para entender os limites de sobrevivência dessas espécies, pois as mudanças drásticas na termoclina diária e a redução do habitat aquático interromperam seus sinais adaptativos, resultando em uma fatalidade inédita.
As discussões da oficina focaram em três frentes: coordenação institucional para emergências, protocolos técnicos de resposta e monitoramento de indicadores ambientais para antecipar riscos. Entre os avanços estão o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, padronização de procedimentos de campo e uso de novas ferramentas de monitoramento, como as desenvolvidas com o MapBiomas Água.
Especialistas identificaram desafios comuns, como atuação em áreas remotas, necessidade de recursos especializados e ampliação da integração entre órgãos públicos, cientistas e comunidades locais. María Jimena Valderrama, veterinária da Fundación Omacha, ressaltou que a resposta a eventos extremos depende da articulação entre ciência, comunidades e tomadores de decisão, já que as comunidades indígenas e locais são frequentemente as primeiras a detectar mudanças incomuns.
O Instituto Mamirauá destacou três grupos de indicadores essenciais para antecipar riscos: ambientais (temperatura da água, ar e níveis hídricos), biológicos (comportamento e mortalidade) e sociais. A participação das comunidades ribeirinhas é fundamental para expandir sistemas de alerta precoce em uma região tão vasta quanto a Amazônia.
Um dos desafios apontados foi a necessidade de cooperação transfronteiriça, pois os grandes sistemas fluviais não respeitam limites políticos. Experiências da Colômbia e Venezuela, com forte participação comunitária em resgates, foram compartilhadas para fortalecer a adaptação regional.
As discussões também abordaram a conectividade regional e a articulação entre redes e iniciativas de conservação, explorando cooperação entre mecanismos como a OTCA, a Aliança Águas Amazônicas e a Convenção de Ramsar. O objetivo é replicar conhecimentos, fortalecer redes de especialistas e ampliar a coordenação para apoiar protocolos e respostas a emergências envolvendo golfinhos de rio.
A Fundación Omacha ressaltou que a crise climática afeta todo o sistema de vida na Amazônia, impactando peixes, tartarugas, peixes-boi e comunidades humanas. María Jimena alertou que eventos climáticos extremos aumentam em frequência e intensidade, reduzindo conectividade entre habitats e disponibilidade de alimento, o que prejudica diversas espécies.
Como legado da crise de 2023, o ICMBio e o INPA elaboraram um Guia para emergências com mamíferos aquáticos amazônicos em situações de seca extrema, visando orientar futuras respostas. Ingrid destacou que a atuação em equipe e a instalação rápida de um Sistema de Comando de Incidente foram fundamentais para o atendimento e identificação dos fatores de mortalidade.
O WWF-Brasil e parceiros trabalham agora na estruturação de recomendações e protocolos técnicos para auxiliar governos e instituições no fortalecimento de políticas públicas nacionais. O objetivo é aprimorar a proteção dos habitats e embasar discussões estratégicas em fóruns globais, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), para uma resposta regional mais resiliente e integrada.
Sumalavia apontou que a proteção dos golfinhos de rio é um termômetro da capacidade coletiva de adaptação às mudanças climáticas. Para avançar, será fundamental fortalecer redes entre atores e instituições, incorporar conhecimentos indígenas e locais e contar com ferramentas práticas para preparar os países diante de futuros eventos extremos.
Fonte: Portal Amazônia