Quase 40% dos indígenas em terras da Amazônia não têm acesso adequado à água
Quase 40% dos indígenas em terras da Amazônia Legal dependem de fontes naturais de água, como rios e igarapés, devido à falta de acesso a sistemas adequados de abastecimento.

A aldeia Nova Trairão, na Terra Indígena Munduruku, no Pará, recebeu um sistema de abastecimento de água em setembro de 2025, fornecido pelo Projeto Saúde e Alegria e pelo Unicef Brasil. O objetivo é melhorar o acesso à água potável para a população local, que enfrenta desafios históricos relacionados à qualidade da água.
Ediene Kirixi, coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn, relembra que, desde o final dos anos 80, utilizava um igarapé na região do Lago do Boto para beber água, pescar e se banhar. Ela relata que, a partir da segunda metade dos anos 90, o garimpo ilegal de ouro contaminou os corpos hídricos próximos à aldeia. “Hoje, as nossas crianças já não têm mais a liberdade de tomar a água do rio. A cor do rio é branca, os peixes estão doentes. A água desce com as sujeiras e chega até nós. Isso deixa muitas aldeias sem ter o que beber”, afirma Ediene.
Análise da InfoAmazonia, baseada em dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, mostra que quase 40% da população indígena em terras indígenas da Amazônia Legal não tem acesso adequado à água e depende principalmente de rios, lagos e igarapés. O saneamento básico permanece precário nessas comunidades, com apenas 27,38% dos moradores conectados à rede geral de distribuição de água e 34,29% captando água de poços, fontes, nascentes ou minas. Outros 27% dependem de rios, lagos e igarapés, 8,71% coletam água da chuva, 1,19% dependem de carro-pipa e 1,4% obtêm água de formas não especificadas.
O garimpo e o desmatamento, aliados a eventos climáticos extremos, têm agravado a degradação dos corpos hídricos. Ediene destaca que, após a estiagem de 2023, igarapés secaram além do normal, prejudicando a pesca e o abastecimento. “Várias sobrevivem da água de igarapés contaminados pelo mercúrio e precisam de poço. A nossa luta agora é cobrar o governo a fazer instalações de água nas aldeias onde ainda não tem”, relata.
Em fevereiro de 2024, o juiz federal Alexsander Kaim Kamphorst determinou que a União forneça mensalmente água potável à população atendida pelo DSEI Tapajós e construa ou reforme sistemas de abastecimento de água ou poços artesianos. O prazo de seis meses para apresentação do cronograma de implantação, reforma e ampliação dos sistemas de abastecimento se encerrou em 13 de agosto, com prazo máximo de dois anos para o fornecimento permanente de água às aldeias da bacia. O Ministério da Saúde informou que há 13 processos licitatórios em curso para instalação de sistemas de abastecimento de água na bacia do Tapajós e que 27 comunidades indígenas são atendidas pelo Programa de Monitoramento da Qualidade da Água na região de Itaituba.
Fonte: Portal Amazônia