Reflexões sobre Dona Euzébia, dragões e símbolos do medo contemporâneo
Análise sobre símbolos do medo, como o dragão de Dona Euzébia, e sua relação com desafios contemporâneos, economia e a persistência de figuras simbólicas no imaginário social.

Não conheci Dona Euzébia, mas conheço o seu dragão — e isso, leitor, é suficiente para compreender o caso e, talvez, algo mais amplo do que o caso. Devo a lembrança da personagem ao texto de Félix Valois, publicado no D24AM, cuja ironia capturou com precisão o traço mais visível da figura: o excesso. Como é próprio dos bons cronistas, fez rir — mérito que não se concede levianamente. Sou leitor assíduo de Félix Valois, a quem devo não apenas o riso frequente, mas, neste caso, o impulso de escrever. Há textos que encerram um assunto; outros abrem caminhos. O seu pertence à segunda categoria.
Recordo-me de uma crônica recente de Valois sobre a figura do diabo — personagem antigo, resiliente e ainda produtivo no imaginário humano. Ali, o invisível ganha forma, o abstrato se reveste de imagem e o mundo volta a ser compreendido por símbolos. Convém notar que a literalidade parece escolher com parcimônia os momentos em que deseja ser levada a sério. Em certos episódios, exige-se rigor absoluto; em outros, concede-se o descanso do símbolo. O homem, quando lhe convém, prefere o fato; quando mais útil, abriga-se na metáfora. Nesse trânsito entre um e outro, constrói sua compreensão do mundo. A ironia se insinua: talvez a distância entre o diabo de um cronista e o dragão de Dona Euzébia não seja tão grande. Ambos cumprem função semelhante: dar contorno ao que inquieta, nome ao que escapa, figura ao que permaneceria difuso.
Essas figuras não permanecem confinadas ao imaginário religioso. Transmutam-se, surgindo em diferentes contextos e épocas. Em cada tempo, encontram novos corpos, discursos e plateias. Há quem veja versões dessas figuras em personagens conhecidos, marcados por promessas e escândalos recorrentes, ou por uma presença que se dispersa em frases interrompidas e afirmações logo desmentidas. Em ambos os casos, forma-se a impressão de que a idade começa a interferir naquilo que se pretende firme. Quando isso se torna recorrente, discute-se não apenas o rumo, mas a capacidade de sustentá-lo. Em desfechos recentes, ao norte, a estrutura afastou a figura da corrida eleitoral; por aqui, o movimento parece inverso, com insistência em vez de retirada. Para alguns, tais leituras são exagero; para outros, evidência. Uma vez acionado o mecanismo, pouco importa a precisão do diagnóstico: a figura já não é vista como pessoa, mas como sintoma.
Voltando a Dona Euzébia, riram dela. Sempre se ri dos que temem com excesso, sobretudo quando o medo se expressa em imagens pouco sofisticadas. Dizem que desmaiava ao ouvir certas palavras, via monstros onde outros viam teorias, confundia economia com Apocalipse. Pode ser. Mas convém perguntar: quando foi que o homem deixou de traduzir o que teme por figuras mais visíveis do que compreensíveis? A religião ensinou o homem a dar forma ao invisível. São Jorge, por exemplo, não combate um réptil catalogável, mas aquilo que ameaça devorar uma ordem percebida como justa. O dragão nunca foi zoológico — sempre foi simbólico. O combate ali representado não se dá apenas no mundo exterior. A lança que atravessa o dragão é também a tentativa humana de impor forma ao caos. O dragão não é apenas aquilo que vem de fora, mas também o que cresce quando não é enfrentado. São Jorge vence a desordem — ainda que nunca de forma definitiva.
Euzébia herdou essa linguagem. Dirão que aplicou mal, projetando sobre uma doutrina o que pertencia ao campo da fantasia. Admito a possibilidade, mas também a de que seu erro não foi temer demais, mas temer sem os instrumentos conceituais que outros possuem. O homem moderno não aboliu o medo, apenas o sofisticou. Já não fala em dragões, mas em ciclos econômicos, instabilidade, perda de poder de compra. No final, a inquietação é semelhante: algo que escapa ao controle e altera o chão sob os pés. Não é a primeira vez. Houve um tempo em que se falava no “dragão da inflação”. Hoje, a criatura perdeu o nome — mas não o apetite. Os preços sobem, a cesta cotidiana fala em números, o dinheiro exige cálculo constante. Se antes se prometia enfrentar o dragão, hoje, no atual governo, ele parece à vontade para crescer. Entre promessas e soluções reiteradas, a criatura não recua — apenas aumenta sua sanha devoradora de poder aquisitivo. O resultado aparece no preço da feira.
Talvez o dragão de Euzébia não fosse aquele, mas, a julgar pelos sinais, também não era fruto de imaginação. A velha da cadeira de balanço revela a face mais dura do mesmo drama. Quem vive na escassez radical não teme redistribuições — agarra-se a elas. A promessa, ainda que vaga, adquire o peso de esperança concreta. O problema é que a esperança, sem lastro na realidade, transforma-se em ciclo: promete-se muito, entrega-se pouco e, no intervalo, consome-se o pouco que restava. Quem nada tem, aposta; quem acredita ter algo a preservar, teme. No curso da história, não raramente é o primeiro que mais perde — não por erro moral, mas por fragilidade estrutural. A escassez exige mudança, mas reduz a capacidade de discernir os custos. Não há ingenuidade de um lado e lucidez do outro, apenas posições distintas diante do risco e consequências assimétricas.
Euzébia não é uma caricatura, mas uma forma de consciência — imperfeita, exagerada, orientada por um instinto antigo: proteger o que se julga essencial, mesmo sem linguagem técnica. São Jorge, ao erguer a lança, não redige argumentos; age porque reconhece uma ameaça. Pode errar na forma do inimigo — e, ainda assim, acertar na intuição de que algo precisa ser enfrentado. O homem contemporâneo, avesso aos excessos de Euzébia, já não vê dragões, mas também já não sabe nomear o que o inquieta. Vive cercado de indicadores e discursos, mas sente que algo se desloca. Sem símbolo, não há enfrentamento. Euzébia, ao menos, tinha um dragão e uma direção para sua lança. Se errou no alvo, isso é discutível. Mais discutível ainda é saber se hoje acertaríamos melhor. Entre o medo exagerado e a ausência de medo há uma diferença que o tempo revela. O erro do homem moderno pode estar em ter perdido a capacidade de reconhecer os sinais. Nem todo medo é ignorância; alguns são formas embrionárias de prudência. O dragão pode não ser aquele que se imagina, mas ignorá-lo nunca foi a melhor estratégia. Quando o tempo demonstra isso, já não há crônica que baste — apenas a realidade.
P.S. — Sobre o diabo, o Gênesis e a unidade do real
Permita-me, leitor, um breve reparo às inquietações que o texto de Félix Valois reacende: se Deus é onipotente, por que admite o diabo? E, admitindo-o, não comprometeria a própria unidade? A pergunta é antiga. Desde cedo, houve quem lesse o Gênesis em mais de um nível: o literal, útil à catequese; e o simbólico, necessário ao pensamento. Nesse plano, a narrativa não descreve botânica, mas consciência; não registra um delito jurídico, mas a passagem do homem à responsabilidade. A “queda” não é um acidente no cosmos, mas uma condição da experiência humana. O problema do mal deixa de ser um escândalo e passa a ser um enigma. Se Deus fosse um ente entre outros, qualquer adversário real o diminuiria. Mas, sendo fundamento do ser, não há um “fora” onde o mal pudesse existir como potência independente. Dizer isso não é santificar o mal, mas recusar-lhe autonomia. O mal manifesta-se como ruptura, privação, desordem do bem — algo que comparece na realidade sem possuir consistência própria. Há presença sem substância, eficácia sem soberania. O “diabo” não concorre com Deus; depende de Deus para existir enquanto figura e linguagem. Ele não é um segundo princípio do real, mas a dramatização de tudo aquilo que, em nós e no mundo, se afasta da medida. A tradição fala ao povo com imagens; pensa com distinções. Uma camada educa, a outra interpreta. Talvez haja ainda um motivo mais humano para a persistência dessas figuras: o homem prefere atribuir a forças externas aquilo que nasce de suas próprias escolhas. O demônio não apenas assusta; também alivia. Explica o que exigiria responsabilidade. A religião traduz esse traço, dando forma ao conflito para devolvê-lo à consciência. Se isso resolve o problema? Talvez não. Mas desloca-o para onde sempre esteve: na dificuldade humana de pensar a unidade sem reduzir a complexidade. E, no fim, a pergunta “por que Deus permite o diabo?” pode ser invertida: o que seria do homem sem a possibilidade de desordem que o obriga a escolher? Sem ela, não haveria história; e, sem história, talvez não houvesse sequer o leitor — muito menos o cronista.
(*) O autor é advogado, Procurador do Estado aposentado, ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas e membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.
Fonte: D24AM