Roberta Luchsinger e Lula: divergências em investigação da Polícia Federal
Roberta Luchsinger reage a declarações de Lula em meio a investigações da Polícia Federal que envolvem seu nome e o de seu filho, destacando divergências no tratamento dado.

A mais antiga injustiça dos homens é fazer da ignorância que alegam uma forma de inocência e do conhecimento de uma mulher a culpa dos atos que eles próprios escolheram praticar. Essa reflexão é central na acusação feita por Roberta Luchsinger contra Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista à CNN Brasil em 17 de outubro de 2026.
Roberta, investigada pela Polícia Federal, reagiu às declarações do presidente Lula, que a chamou de pilantra e a comparou a Daniel Vorcaro, como se fosse uma versão feminina do ex-banqueiro. Seu nome aparece ao lado do de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, empresários e agentes públicos sob investigação, mas foi ela quem recebeu os qualificativos mais duros, enquanto Lula reservou a seu filho a ressalva de prestar esclarecimentos se houvesse irregularidades.
As investigações continuam, e há uma contradição entre a declaração de Lula, que afirmou em agosto não conhecer Roberta, e pelo menos doze fotografias entre 2018 e 2023 que mostram os dois juntos. A campanha tentou justificar a declaração, mas as imagens permanecem como evidência. Lula não fez censura semelhante aos homens de seu círculo mencionados nas investigações.
Roberta identificou essa assimetria e atribuiu-a ao machismo. Ela usou a metáfora da mulher que oferece a maçã envenenada aos homens do governo para representar a reação que imagina no presidente. A tradição que lê em Eva a origem da tentação sempre permitiu ao homem atenuar a própria responsabilidade alegando que apenas aceitou o fruto, mas a responsabilidade é individual.
A Polícia Federal investiga Roberta e Lulinha em três inquéritos abertos entre julho e agosto de 2026, a partir da Operação Sem Desconto, que apura desvios em benefícios previdenciários. Foram revelados contratos com remuneração atrelada ao êxito em intermediações, pagamentos de cerca de R$ 3 milhões à consultoria de Roberta, mensagens sobre entrega de dinheiro a alguém chamado Fábio, despesas de viagem associadas a Lulinha e pagamentos em favor do ex-chefe de gabinete presidencial. Há fatos materiais e hipóteses ainda por demonstrar, como corrupção e tráfico de influência.
Segundo o Metrópoles de 17 de outubro, Roberta já foi ouvida e sofreu medidas cautelares, enquanto Lulinha, investigado desde julho, ainda não foi chamado a depor. Roberta citou também o grupo Mota-Engil e reuniões a portas fechadas entre Lulinha e um dirigente da empresa, sem apresentar provas de irregularidade.
Roberta afirma receber ameaças de morte diariamente, que também atingem suas filhas, incluindo mensagens de estupro e esfaqueamento. Em outubro, uma de suas filhas sofreu um acidente automobilístico em São Bernardo do Campo, cujas circunstâncias ainda são apuradas, e Roberta não pôde ir ao local devido a restrições judiciais. Ela não apresentou prova de que o acidente tenha sido provocado, mas o contexto das ameaças é relevante para a investigação.
O texto lembra que não é a primeira vez que Lula, diante de uma imputação, atribui a responsabilidade a uma mulher. Em interrogatórios sobre o triplex do Guarujá e um apartamento em São Bernardo, ele atribuiu a Marisa Letícia, sua esposa falecida, o interesse e a gestão dos imóveis. Marisa Letícia, que não pode responder, tornou-se a explicação para Lula. Roberta denuncia a mesma estrutura, em que a responsabilidade vai para a mulher e o homem aparece como quem estava ao lado.
Roberta conhece Lula e o PT há muito tempo, esteve ao lado dele em momentos decisivos de sua trajetória, inclusive quando estava preso. Ela relata ter vivido a antessala do poder, vendo ministros se reunirem com o filho do presidente e sendo procurada por pessoas que pediam favores junto à agenda do Palácio do Planalto, afirmando saber coisas que não constam nas mensagens apreendidas.
O autor do texto, Jorge Henrique de Freitas Pinho, advogado e ex-Procurador-Geral do Estado do Amazonas, destaca que a palavra do presidente tem peso institucional e que desqualificar publicamente uma pessoa investigada exige justificativa que Lula não apresentou. Ele ressalta que a investigação dirá o que cada um fez, mas que a responsabilidade moral não pode obedecer a critérios diferentes conforme sexo, parentesco ou posição política.
Fonte: D24AM