Selênio pode atenuar os efeitos do mercúrio em ribeirinhos do Pará
Pesquisa revela que o selênio ajuda a reduzir a toxicidade do mercúrio em populações ribeirinhas do Pará, favorecendo sua eliminação pelo organismo.

Um novo estudo realizado com comunidades ribeirinhas do Pará trouxe à luz uma importante descoberta sobre a saúde dessas populações. Apesar de apresentarem níveis de mercúrio no sangue que podem ser até 12 vezes superiores aos limites estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os efeitos tóxicos desse metal são significativamente menores do que o esperado. A pesquisa sugere que o selênio, um nutriente encontrado em altas concentrações na dieta local, especialmente na castanha-do-pará, desempenha um papel crucial na diminuição da toxicidade do mercúrio.
O estudo, coordenado pelo professor Fernando Barbosa Júnior da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), foi publicado na revista Environment & Health. Ele revela que o selênio interfere na forma como o mercúrio é distribuído no corpo humano, reduzindo a transferência de uma das formas mais tóxicas do metal para o plasma sanguíneo. Isso resulta em uma maior eliminação do mercúrio pela urina, o que ajuda a proteger a saúde dos ribeirinhos.
Os pesquisadores analisaram a relação entre o mercúrio e o selênio em 1.089 voluntários adultos de comunidades nas bacias dos rios Tapajós e Amazonas. A pesquisa identificou que o metilmercúrio, a forma orgânica do metal, representa a maior parte do mercúrio presente no sangue, com uma média de 76%. No plasma, essa proporção se altera, com 49% do mercúrio sendo metilmercúrio e 51% na forma inorgânica, indicando que parte do metilmercúrio é desmetilada dentro do organismo.
Além disso, quanto maiores as concentrações de selênio no sangue e na urina dos participantes, maior foi a proporção de mercúrio inorgânico excretada. Essa descoberta levanta a hipótese de que o selênio pode não apenas ajudar na eliminação do mercúrio, mas também na transformação de sua forma mais tóxica em uma forma menos prejudicial. Os pesquisadores destacam que a compreensão dessa dinâmica é essencial, já que a exposição ao metilmercúrio pode causar sérios danos ao sistema nervoso central, incluindo problemas de coordenação motora e desenvolvimento neurológico em crianças.
Os pesquisadores alertam, no entanto, que os resultados não devem ser interpretados como um incentivo ao uso indiscriminado de suplementos de selênio, pois a ingestão excessiva pode ser tóxica. O estudo, que faz parte de uma colaboração internacional, visa entender melhor como o mercúrio se comporta no organismo e quais fatores influenciam sua toxicidade, considerando a importância do peixe na dieta ribeirinha e os riscos associados à contaminação por mercúrio.
Fonte: Portal Amazônia