Indígenas do Mato Grosso enfrentam desafios com a redução da água em seus territórios
Indígenas na Terra Indígena Tirecatinga, em Mato Grosso, adaptam-se à drástica diminuição da superfície de água em seus territórios, enfrentando insegurança hídrica e alimentar.

Na Terra Indígena Tirecatinga, localizada no oeste de Mato Grosso, a realidade dos povos indígenas se torna cada vez mais desafiadora devido à significativa redução da superfície de água em seus territórios. De acordo com uma análise da InfoAmazonia, entre 1985 e 2025, a bacia hidrográfica do Alto Rio Juruena perdeu 14% de sua área hídrica, enquanto as terras indígenas, que preservam 3,54 milhões de hectares de vegetação, enfrentaram uma diminuição de 55% na superfície de água durante o mesmo período.
O rio Juruena, que se estende por 1.080 quilômetros e conecta os biomas Cerrado e Amazônia, é crucial para a região, pois fornece 60% da água que chega ao Tapajós. Na Terra Indígena Tirecatinga, os rios Buriti e Papagaio perderam 75% de seus corpos d'água em quatro décadas, o que impacta diretamente a segurança hídrica e alimentar das comunidades locais. A presidente da associação de mulheres Thutalinãnsu, Cleide Terena, expressou a dor vivida pelos indígenas: “Quando vem aquele sol quente queimando nossas plantas, nosso alimento, somos nós que estamos aqui.”
Nos últimos cinco anos, a estação seca se tornou mais extrema, resultando em um verão marcado por tempestades intensas e um inverno mais curto e seco. Essa mudança climática atrasou o plantio, prejudicou a desova dos peixes e aumentou a incidência de mosquitos, levando a um aumento nos casos de dengue na região. Para lidar com essas questões, os povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti reuniram-se em dezembro de 2024 para mapear os impactos climáticos e desenvolver soluções, resultando na criação do Calendário Ecológico de Tirecatinga.
Este calendário, elaborado com apoio da Operação Amazônia Nativa e da Rede Juruena Vivo, servirá como base para o novo Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena. As terras indígenas formam uma barreira contra o avanço da agropecuária, que desde 1985 transformou 50% da vegetação nativa em áreas agrícolas, impactando a biodiversidade e a disponibilidade de água na região. Suyani Terena, vice-presidente da Thutalinãnsu, destacou que a resiliência do Cerrado está sendo ameaçada, e a preocupação com a escassez de recursos hídricos e alimentos tradicionais é crescente entre as comunidades.
Com o intuito de promover a agricultura familiar e recuperar alimentos tradicionais, a Thutalinãnsu, em parceria com o Instituto Centro de Vida (ICV), iniciou o projeto Ancestralidades, que visa resgatar práticas agrícolas ancestrais e adaptar o cultivo às novas condições climáticas. As iniciativas já resultaram na colheita de alimentos como araruta e milho, fortalecendo a segurança alimentar das comunidades. Cleide enfatiza a importância de políticas públicas de irrigação para mitigar os efeitos das secas extremas e garantir a sobrevivência cultural e alimentar dos povos indígenas na região.
Fonte: Portal Amazônia