Isótopos da Água Revelam Mudanças nas Chuvas da Amazônia
Estudo inédito utiliza isótopos para analisar como fenômenos climáticos impactam as chuvas na Amazônia, especialmente sob a influência do El Niño.

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) realizaram um monitoramento diário em Manaus (AM) utilizando isótopos da água para entender como eventos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico Norte têm alterado a umidade e a dinâmica das chuvas na Amazônia. As secas severas de 2023 e 2024 não apenas diminuíram o volume dos rios, mas também mudaram a própria composição da precipitação na região.
O estudo é um dos primeiros a retomar o uso de técnicas isotópicas em investigações hidroclimáticas na Amazônia após mais de 30 anos e sugere que esses isótopos podem prever a chegada de períodos de seca prolongados. Isótopos representam versões mais leves ou pesadas de átomos de um mesmo elemento químico, influenciando a evaporação e condensação da água no ciclo hidrológico.
A geógrafa Rafaela Rodrigues Gomes, doutoranda da Unesp e primeira autora do trabalho publicado na revista Hydrological Processes, explica que as proporções entre isótopos leves e pesados são alteradas por variáveis meteorológicas. Seu orientador, Didier Gastmans, coordenador do Laboratório de Recursos Hídricos e Isótopos Ambientais (LARHIA), destaca que cada condição climática gera diferenças na proporção dos isótopos, funcionando como uma “impressão digital” da água.
A coleta de amostras diárias de chuva em Manaus, realizada entre março de 2023 e fevereiro de 2025, totalizou 207 amostras. Essas amostras foram analisadas em laboratórios especializados, enquanto Rafaela comparou dados isotópicos com medições atmosféricas locais. Ela constatou que durante o período chuvoso, a chamada Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) controla as proporções isotópicas, enquanto no período seco, a Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) assume esse papel.
O estudo também identificou mudanças na composição isotópica da chuva ao comparar dados recentes com aqueles coletados entre 1965 e 1990. As secas severas de 2023 e 2024 foram exacerbadas pelo aquecimento anômalo das águas do Atlântico Norte, que deslocou a ZCIT, reduzindo a umidade na região. Os pesquisadores destacam que os isótopos estáveis podem servir como um alerta precoce para secas prolongadas, especialmente em um contexto de mudanças climáticas, mas ressaltam a importância de mais observações para confirmar a recorrência dos sinais observados.
Fonte: Portal Amazônia