Pesquisa avalia ação seletiva de óleos essenciais contra células tumorais
Pesquisa da UFPA avalia óleos essenciais de cipó-alho e canela contra células tumorais, analisando seletividade, métodos laboratoriais e próximos passos do estudo.

A estudante de Biomedicina no Pará, Viviane Ribeiro Santos, conduz uma pesquisa que investiga a utilização de óleos essenciais de cipó-alho e canela para tratar células cancerígenas no organismo humano. O objetivo do estudo é compreender se compostos naturais podem ajudar no combate ao câncer de forma mais seletiva, atacando principalmente as células tumorais e preservando as células saudáveis.
Segundo Viviane, a escolha por esses óleos se deu a partir do trabalho contínuo do Núcleo de Pesquisas em Oncologia com produtos naturais. "Nosso laboratório recebe vários óleos essenciais por meio de colaborações. A gente faz uma triagem inicial e avalia quais apresentam resultados interessantes. A canela e o cipó-alho chamaram atenção logo nos primeiros testes", explicou. A orientadora da pesquisa, professora Ingryd Nayara de Farias Ramos, reforça que o uso popular dessas plantas também influenciou a decisão: "São produtos muito presentes no dia a dia da população, usados em chás, remédios caseiros e na medicina tradicional. A ideia é justamente verificar se esse uso empírico tem base científica", complementou.
A pesquisa foi realizada totalmente em laboratório, por meio de testes in vitro, utilizando diferentes linhagens de células cancerígenas, como do câncer gástrico, melanoma e do câncer pulmonar. Também foi utilizada uma linhagem de células não tumorais, etapa fundamental para avaliar se os óleos são seletivos celulares. Para medir a viabilidade celular, os pesquisadores utilizaram o ensaio de MTT, um teste bastante comum em pesquisas desse tipo. "É um método simples e acessível. As células metabolicamente ativas transformam o reagente em uma substância roxa. Quanto mais roxa a placa fica, mais células viáveis ainda existem", explicou a estudante. Além disso, foi analisado como essas células morrem após o tratamento com os óleos, utilizando a citometria de fluxo, técnica que permite a identificação de células com precisão para distinguir o padrão de morte celular gerado pelos óleos.
Os resultados mostraram que o óleo essencial de canela teve um efeito relevante sobre as células de câncer gástrico. "A linhagem celular tumoral foi cerca de cinco vezes mais sensível ao óleo do que a linhagem não tumoral, o que indica um bom nível de seletividade deste ativo", afirmou Viviane. O óleo essencial de cipó-alho apresentou um efeito ainda mais amplo, reduzindo significativamente a viabilidade de várias linhagens cancerígenas, inclusive nas menores concentrações testadas. "Isso indica que o óleo tem um potencial citotóxico forte contra células tumorais", explicou a pesquisadora.
Um dos pontos destacados na análise foi o tipo de morte celular observado experimentalmente. "Os trabalhos com produtos naturais normalmente indicam padrão de morte por apoptose, porém, nos nossos estudos, achamos predominantemente necrose", relatou a professora Ingryd. Segundo ela, o teste utilizado não diferencia necrose de necroptose, levantando a hipótese de que esteja ocorrendo necroptose, uma via importante para contornar a resistência das células tumorais. Apesar dos resultados, as pesquisadoras reforçam que o estudo ainda está em fase inicial. "É uma pesquisa de base. Antes de pensar em qualquer aplicação clínica, a gente precisa entender melhor os mecanismos moleculares envolvidos", afirmou Viviane. Os próximos passos incluem análises de biologia molecular para identificar genes e vias celulares ativados, além de testes mais complexos, como culturas 3D e estudos in vivo.
Fonte: Portal Amazônia