Rios da Amazônia moldam relevo e influenciam a fauna há 500 mil anos
Estudo revela como o deslocamento dos rios da Amazônia moldou o relevo e a distribuição de espécies ao longo de 500 mil anos, destacando a dinâmica dos habitats.

Uma pesquisa conduzida por geólogos liderados por Cristiano Galeazzi, da Universidade de Tecnologia de Chengdu, na China, e Renato Almeida, da Universidade de São Paulo (USP), analisou as transformações no curso de oito rios principais na Amazônia Central ao longo de aproximadamente 500 mil anos. Entre esses rios estão o Solimões, que é o nome do rio Amazonas antes de sua confluência com o rio Negro, e afluentes como o Juruá e o Madeira.
O estudo sugere que o deslocamento desses rios pela planície amazônica é um fator que pode explicar a distribuição atual de seis grandes áreas de endemismo. Estas são regiões delimitadas pelos rios que abrigam uma variedade de espécies exclusivas, especialmente aves e macacos, que habitam esses ecossistemas dinâmicos.
A pesquisa iniciou-se com uma análise detalhada de imagens de radar de alta precisão do terreno da Amazônia Central, obtidas durante uma missão do ônibus espacial Endeavour, da Nasa, em 2000. Os pesquisadores identificaram arcos de cristas e depressões com mais de 2 km de raio, o que confirma que os grandes rios da região já cruzaram áreas que hoje estão em elevações maiores.
De acordo com as conclusões do estudo, até cerca de 350 mil anos atrás, a Amazônia Central apresentava uma planície mais suave, onde os rios se entrelaçavam entre florestas e pântanos. Essa paisagem se transformou com a escavação de vales mais profundos, resultado de quedas no nível do mar e aumento do gelo nas calotas polares, o que acabou por modificar a dinâmica dos leques aluviais.
Esse processo de transformação do relevo se repetiu ao longo de quatro episódios, permitindo que áreas mais altas se tornassem terra firme, enquanto as espécies de regiões adjacentes começaram a colonizar essas novas áreas. O estudo revela que os rios de hoje não apenas funcionam como barreiras geográficas, mas também como elementos dinâmicos que mudam e influenciam a biodiversidade no tempo, complexificando a hipótese proposta pelo naturalista Alfred Russel Wallace sobre a separação de espécies.
Fonte: Portal Amazônia