Debate em Macapá discute crise hídrica e impactos das mudanças climáticas na Amazônia
Evento em Macapá reuniu especialistas para discutir crise hídrica, impactos das mudanças climáticas e poluição na Amazônia.

O tema da água foi um dos assuntos centrais no evento 'Debate COP 30: Balanço Crítico e Lições para a Ciência Brasileira Rumo à COP 31', realizado no Amapá. O encontro reuniu especialistas para discutir o estado atual dos ecossistemas amazônicos diante das mudanças climáticas.
O Brasil possui 12% da água doce do planeta, sendo que três quartos dessa quantidade estão localizados na Amazônia, a maior bacia hidrográfica do mundo. Apesar disso, a crise hídrica na região é uma realidade preocupante, especialmente considerando a trajetória de degradação das últimas quatro décadas.
O pesquisador Jochen Schöngart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), destacou que, no século 21, o número de dias em emergência hídrica na cidade de Manaus, aferida pelo nível da água nos rios, já é maior do que em todo o século anterior. Schöngart também alertou que o sul da Amazônia está aquecendo em média 0,4°C por década, um ritmo nunca antes visto, e que as estiagens frequentes e duradouras levam lagos amazônicos a perderem até 90% de suas águas.
A Amazônia ocupa 5,5 milhões de quilômetros quadrados entre o Brasil e outras oito nações. O ecólogo Leandro Juen, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), ressaltou que o impacto das mudanças climáticas varia entre as sub-regiões e que o enfrentamento da crise precisa ser regionalizado. Ele destacou a importância dos igarapés, pequenos rios que são os primeiros a manifestar os efeitos das mudanças climáticas, com aumento da temperatura da água, perda de espécies e mudanças na vazão.
A pesquisadora Claudia Bonecker, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), abordou a proliferação de espécies invasoras e a deterioração dos serviços ecossistêmicos nos rios. Ela citou o exemplo do Rio Paraná, onde a proliferação de cianobactérias tem aumentado a mortalidade de peixes e afetado a pesca e o turismo. Na Amazônia, a eutrofização, causada pelo excesso de nutrientes como nitrogênio e fósforo, também tem se tornado cada vez mais presente.
A professora Sandra Azevedo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou que, apesar do crescimento populacional na Amazônia Legal, menos de um terço da população da Região Norte tem acesso à coleta de esgoto, e ainda menos contam com tratamento adequado. Essa falta de saneamento contribui para o aumento de poluentes nos rios, como pesticidas, fertilizantes e medicamentos, que degradam o equilíbrio ecológico já pressionado pelo aumento da temperatura.
Sandra também ressaltou o impacto da intensificação da pecuária, lembrando que o excremento de uma vaca equivale ao de 30 pessoas. Ela comparou os corpos d'água eutrofizados à sopa primordial, ambiente onde as bactérias adaptadas prosperam, colocando em risco a sobrevivência das espécies nativas.
O vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) para a Região Norte, Adalberto Luis Val, afirmou que a água é o principal elo entre questões sociais e ambientais na Amazônia. Ele alertou que os peixes, principal fonte de proteína das populações locais, estão próximos do limite térmico que suportam, e que o novo El Niño pode agravar ainda mais a situação. Val também mencionou relatórios da ABC sobre mercúrio, microplásticos e exploração de petróleo, destacando os riscos para a biota amazônica, especialmente para espécies pulmonares em caso de vazamentos.
Fonte: Portal Amazônia