El Niño de 2026 e o risco de seca na Amazônia: impactos e desafios
O El Niño de 2026 aumenta o risco de seca na Amazônia, com impactos ambientais, sociais e econômicos. Especialistas destacam a necessidade de medidas preventivas e estratégias integradas.

O fenômeno El Niño está estabelecido e ganha intensidade, colocando a Amazônia diante do risco de uma nova grande seca. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o atual episódio teve início em junho de 2024. A mais recente projeção da NOAA, divulgada pelo Inmet, indica probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos próximos trimestres, com 69% de chance de ser o mais intenso registrado desde 1950, podendo apresentar anomalias iguais ou superiores a 2,5°C nas águas do Pacífico. O fenômeno deve persistir pelo menos até março de 2027.
O pesquisador do Inpe Gilvan Sampaio afirma que "O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global". A intensidade máxima e seus efeitos ainda apresentam incertezas, mas o fenômeno ocorre em um planeta com temperaturas crescentes.
Uma grande estiagem na Amazônia tem impactos que vão além do meio ambiente. A redução dos níveis dos rios afeta a agricultura familiar, a pesca, o extrativismo, o transporte fluvial e o abastecimento. Na região, o rio representa não só água, mas também estrada, alimento, trabalho, renda e vida. Com o nível dos rios baixo, o transporte por barco pode ser interrompido, a pesca diminui, a produção não é escoada, os alimentos ficam mais caros e comunidades podem ficar isoladas, transformando um fenômeno climático em crise econômica e social.
No território indígena Kumaruara, no oeste do Pará, cerca de 1.200 famílias ainda enfrentam consequências das estiagens de 2023 e 2024. A coordenadora Zenilda Kumaruara declarou: "Até agora ainda não conseguimos resolver o problema da água".
A bioeconomia é apontada como uma alternativa para um modelo sustentável de desenvolvimento da Amazônia, envolvendo produtos como açaí, cacau, castanha, óleos e frutos amazônicos, além da pesca. Essas cadeias produtivas dependem dos ciclos da natureza, e sem água não há produção; sem rios navegáveis, não há escoamento. Assim, além de sustentável, a bioeconomia precisa ser resiliente para enfrentar eventos climáticos extremos.
Os grupos mais vulneráveis, como ribeirinhos, agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, extrativistas e pequenos empreendedores, dependem diretamente dos rios, da floresta e das chuvas, mas possuem menos recursos para enfrentar eventos extremos. Esse aspecto da crise climática evidencia que quem menos contribuiu para o problema muitas vezes tem menor capacidade para se proteger das consequências.
Medidas preventivas são necessárias antes que a emergência seja decretada. Entre as ações recomendadas estão segurança hídrica, diversificação da produção, assistência técnica, crédito, proteção da agricultura familiar, tecnologias adaptadas à realidade amazônica, segurança alimentar, planejamento territorial, preparação das Defesas Civis e monitoramento permanente.
O professor Manoel Ricardo Vilhena, pesquisador da Unifap e consultor da ONU, alerta que "É urgente que os estados da Amazônia compreendam o impacto severo das mudanças climáticas sobre todas as formas de vida do bioma — da população e cidades à agricultura, fauna e flora. Do contrário, os projetos do presente se tornarão inviáveis e o próprio futuro estará comprometido."
Não existe uma única medida capaz de proteger a Amazônia de uma grande seca. É necessária uma estratégia envolvendo governos, universidades, centros de pesquisa, setor produtivo, organizações sociais e as próprias comunidades. O El Niño de 2026 é uma realidade, e embora a dimensão total dos seus impactos ainda não seja conhecida, há ciência, tecnologia, sistemas de monitoramento e conhecimento acumulado para antecipar riscos. O desafio é transformar conhecimento em decisão e decisão em ação, com foco na proteção dos que mais dependem dos rios, da floresta e da agricultura familiar.
O jornalista Olimpio Guarany, autor do livro 'A Nova Conquista da Amazônia' e apresentador do programa Amazônia em Pauta, realizou expedição histórica navegando o rio Amazonas entre 2020 e 2022, refazendo a saga de Pedro Teixeira (1637-1639). O conteúdo desta matéria é de sua autoria.
Fonte: Portal Amazônia